Com a mão queimada, Jon deu uma palmada no ombro do amigo. Atravessaram juntos o acampamento. Fogueiras para cozinhar eram acesas por todo lado. Em cima, as estrelas iam aparecendo. A longa cauda vermelha do Archote de Mormont ardia, luminosa como a lua. Jon ouviu os corvos antes de vê-los. Alguns chamavam por seu nome. As aves não se acanhavam quando se tratava de fazer barulho.

Eles também sentem isso.

– É melhor que eu vá atender ao Velho Urso – Jon falou. – Ele também fica barulhento quando não é alimentado.

Foi encontrar Mormont conversando com Thoren Smallwood e meia dúzia de outros oficiais.

– Aqui está você – disse o velho em tom rabugento. – Traga-nos um pouco de vinho quente, por favor. A noite está gelada.

– Sim, senhor.

Jon acendeu uma fogueira, requisitou aos homens do abastecimento um pequeno barril do tinto encorpado que Mormont preferia e despejou-o numa chaleira. Pendurou-a sobre as chamas enquanto reunia o resto dos ingredientes. O Velho Urso era exigente com o vinho quente condimentado. Tanto de canela, tanto de noz-moscada e tanto de mel, nem um tiquinho a mais. Passas, nozes e bagas secas sim, mas nada de limão, isso era o mais asqueroso tipo de heresia sulista… O que, para Jon, era estranho, uma vez que sempre punha limão na cerveja matinal. A bebida devia estar quente para aquecer devidamente um homem, insistia o Senhor Comandante, mas nunca se podia permitir que o vinho começasse a ferver. Jon vigiou a chaleira com olhos cuidadosos.

Enquanto trabalhava, conseguia ouvir as vozes que vinham de dentro da tenda. Jarman Buckwell disse:

– O caminho mais fácil para subir as Presas de Gelo é seguindo o Guadeleite até a nascente. Mas se formos por aí, Rayder saberá da nossa aproximação, tão certo como o nascer do sol.

– A Escada do Gigante pode servir – Sor Mallador Locke observou –, ou o Passo dos Guinchos, se estiver limpo.

O vinho fumegava. Jon tirou a chaleira do fogo, encheu oito taças e as levou para a tenda. O Velho Urso espiava o mapa rudimentar que Sam lhe havia desenhado na Fortaleza de Craster. Tirou uma taça do tabuleiro de Jon, experimentou o vinho e fez um aceno brusco de aprovação. O corvo saltou de seu braço. “Grão. Grão. Grão.”

Sor Ottyn Wythers recusou o vinho com um gesto.

– Eu preferia evitar a todo custo a entrada nas montanhas – o homem disse numa voz fraca e fatigada. – As Presas de Gelo mordem cruelmente, mesmo no Verão, e agora… Se formos apanhados por uma tempestade…

– Não pretendo arriscar as Presas, a menos que tenhamos de fazer isso – Mormont respondeu. – Os selvagens não são mais capazes de viver de neve e pedra do que nós. Irão emergir das alturas em breve, e para qualquer tropa de um tamanho razoável, a única rota possível segue o Guadeleite. Se assim for, temos aqui uma posição forte. Eles não podem esperar escapar de nós.

– Podem não querer escapar. São milhares, e nós seremos trezentos quando Meia-Mão nos alcançar – Sor Mallador aceitou a taça que Jon lhe oferecia.

– Se chegar a haver batalha, não poderíamos desejar posição melhor do que esta – Mormont voltou a insistir. – Reforçaremos as defesas. Fossos e espigões, estrepes espalhadas pelas vertentes, com todas as brechas fechadas. Jarman, quero seus olhos mais aguçados como vigias. Dispostos em anel, à nossa volta e ao longo do rio, para nos prevenirem de qualquer aproximação. Esconda-os nas árvores. E é melhor começarmos também a trazer água para cima, mais do que precisamos. Escavaremos cisternas. Isso manterá os homens ocupados, e pode se mostrar necessário mais tarde.

– Meus patrulheiros… – começou Thoren Smallwood.

– Seus patrulheiros limitarão as patrulhas a este lado do rio até que Meia-Mão nos alcance. Depois disso, veremos. Não perderei mais de meus homens.

– Mance Ryder pode estar reunindo sua tropa a um dia de viagem daqui, e nunca o saberemos – Smallwood protestou.

– Nós sabemos onde os selvagens estão se juntando – Mormont rebateu. – Craster nos disse. Não gosto do homem, mas não me parece que tenha mentido quanto a isso.

– Às suas ordens – Smallwood saiu carrancudo. Os outros terminaram o vinho e seguiram-no, com mais cortesia.

– Devo trazer seu jantar, senhor? – Jon perguntou.

Grão”, gritou o corvo. Mormont não respondeu logo. E, quando o fez, disse apenas:

– Seu lobo encontrou caça hoje?

– Ainda não voltou.

– Seria bom termos carne fresca – Mormont enfiou a mão num saco e ofereceu um punhado de milho ao corvo. – Acha que faço mal em manter os patrulheiros por perto?

– Isso não me cabe dizer, senhor.

– Cabe, se eu perguntar.

– Se os patrulheiros tiverem de permanecer à vista do Punho, não vejo como podem ter esperança de encontrar meu tio – Jon admitiu.

– Não podem – o corvo bicou os grãos na mão do Velho Urso. – Sejam duzentos homens ou dez mil, esta terra é vasta demais – desaparecido o milho, Mormont virou a mão.

– Não está pensando em desistir da busca, está?

– Meistre Aemon pensa que você é esperto.

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