Jon sabia que não devia discutir. E, assim, a ordem foi dada e os irmãos da Patrulha da Noite montaram o acampamento por trás do anel de pedra que os Primeiros Homens tinham construído. Tendas negras nasceram como cogumelos depois da chuva, e cobertores e camas de campanha cobriram o terreno nu. Intendentes amarraram os garranos em longas fileiras, e lhes deram água e alimento. Lenhadores levaram seus machados até as árvores, à luz da tarde que se escoava, a fim de colher madeira suficiente para a noite. Vinte construtores puseram-se a limpar a vegetação rasteira, cavar latrinas e desatar os feixes de estacas endurecidas pelo fogo que tinham trazido.

– Quero ver todas as aberturas do muro entrincheiradas e com estacas antes de a noite cair – ordenou o Velho Urso.

Depois de armar a tenda do Senhor Comandante e de cuidar dos cavalos, Jon Snow desceu o monte em busca de Fantasma. O lobo gigante veio de imediato, num silêncio total. Num momento, Jon caminhava a passos largos por entre as árvores, assobiando e gritando, sozinho no verde, com pinhas e folhas caídas sob os pés; no seguinte, o grande lobo gigante branco andava a seu lado, alvo como a neblina da manhã.

Mas, quando chegaram ao forte anelar, Fantasma voltou a se mostrar renitente. Avançou com cautela para farejar a abertura nas pedras e depois recuou, como se não tivesse gostado do cheiro que sentiu. Jon tentou agarrá-lo pelo cangote e arrastá-lo à força para dentro do anel, o que não era tarefa fácil; o lobo pesava tanto quanto ele, e era muito mais forte.

– Fantasma, qual é o seu problema? – o lobo não era de se mostrar tão perturbado. Por fim, Jon teve de desistir: – Faça como quiser. Vai, pode caçar – os olhos vermelhos ficaram observando-o enquanto abria caminho por entre as pedras cobertas de musgo.

Deviam estar em segurança ali. O monte tinha uma posição dominante, e as vertentes norte e oeste formavam precipícios e eram apenas um pouco mais suaves para leste. No entanto, à medida que o ocaso se aprofundava e a escuridão deslizava pelos espaços vazios entre as árvores, a sensação de mau agouro cresceu dentro de Jon. Esta é a floresta assombrada, disse a si mesmo. Talvez haja fantasmas aqui, o espírito dos Primeiros Homens. Um dia, este lugar lhes pertenceu.

– Pare de agir como um garoto – murmurou consigo mesmo. Subindo nas pedras empilhadas, Jon dirigiu o olhar para o sol poente. Conseguia ver a luz tremeluzindo como ouro martelado na superfície do Guadeleite no ponto em que o rio curvava para sul. Em direção à nascente, o terreno era mais irregular, a floresta densa dava lugar a uma série de montes pedregosos e nus que subiam, altos e bravios, para norte e oeste. No horizonte, as montanhas erguiam-se como uma grande sombra, cordilheira após cordilheira estendendo-se na distância azul-acinzentada, com os picos recortados, perpetuamente revestidos de neve. Mesmo de longe, pareciam vastas, frias e inóspitas.

Mais perto dali, eram as árvores que governavam. Para sul e para leste, a floresta estendia-se até o horizonte, um vasto emaranhado de raízes e ramos pintado em diversos tons de verde, com uma mancha de vermelho aqui e ali, onde um represeiro abria caminho por entre os pinheiros e as árvores-sentinela, ou uma gota de amarelo nos locais em que algumas árvores latifoliadas tinham começado a mudar de cor. Quando o vento soprou, Jon conseguiu ouvir o estalar e ranger de galhos mais velhos do que ele. Mil folhas esvoaçaram, e por um momento a floresta pareceu um mar de um verde profundo, tempestuoso e palpitante, eterno e impossível de conhecer.

Jon refletiu que não era provável que Fantasma estivesse sozinho lá embaixo. Qualquer coisa podia estar em movimento sob aquele mar, rastejando através da escuridão dos bosques na direção do forte anelar, escondida sob aquelas árvores. Qualquer coisa. Como poderiam chegar a saber? Ficou ali por muito tempo, até o sol desaparecer por trás dos picos serrados das montanhas e a escuridão começar a deslizar pela floresta.

– Jon? – Samwell Tarly o chamou. – Bem que achei que fosse você. Está bem?

– Suficientemente bem – Jon saltou para baixo. – Como passou o dia hoje?

– Bem. Passei bem. De verdade.

Jon não dividiria suas inquietações com o amigo, ainda mais no momento em que Samwell Tarly parecia por fim começar a encontrar sua coragem.

– O Velho Urso pretende esperar aqui por Qhorin Meia-Mão e pelos homens vindos da Torre Sombria.

– Parece um local seguro – Sam respondeu. – Um forte anelar dos Primeiros Homens. Acha que houve batalhas travadas aqui?

– Sem dúvida. É melhor que prepare uma ave. Mormont vai querer enviar notícias.

– Gostaria de poder enviar todas. Detestam estar engaioladas.

– Também detestaria, se pudesse voar.

– Se eu pudesse voar, estaria de volta ao Castelo Negro, comendo um empadão de porco.

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