– Vi você olhando para mim – Weese limpou os dedos no peito da camisa dela. Depois agarrou sua garganta com uma mão e esbofeteou-a com a outra. – O que foi que lhe disse? – voltou a esbofeteá-la, com as costas da mão. – Guarde esses olhos para você, senão, da próxima vez arranco um deles com a colher e o dou de comer à minha cadela – um empurrão atirou-a ao chão, aos tropeções. A bainha prendeu-se num prego solto no banco de madeira lascada e rasgou-se quando ela caiu. – E vai remendar isso antes de dormir – anunciou Weese enquanto arrancava o último pedaço de carne do capão. Quando terminou, chupou sonoramente os dedos, e atirou os ossos ao seu feio cão malhado.

– Weese – Arya murmurou naquela noite enquanto se debruçava sobre o rasgão na roupa. – Dunsen, Polliver, Raff, o Querido – ela dizia um nome a cada vez que puxava a agulha de osso através da lã crua. – Cócegas e Cão de Caça. Sor Gregor, Sor Amory, Sor Ilyn, Sor Meryn, Rei Joffrey, Rainha Cersei – perguntou a si mesma por quanto mais tempo teria de incluir Weese na sua prece, e flutuou para o sono, sonhando que, no dia seguinte, quando acordasse, ele estaria morto.

Mas foi a biqueira dura da bota de Weese que a acordou, como sempre. A força principal da tropa de Lorde Tywin partiria naquele dia, disse-lhes ele enquanto quebravam o jejum com bolos de aveia.

– Que nenhum de vocês esteja pensando que as coisas vão ficar fáceis depois de o senhor de Lannister ir embora – ele os preveniu. – O castelo não vai encolher, prometo, só que agora vai haver menos mãos para cuidar dele. Seu bando de dorminhocos. Vão aprender agora o que é trabalho, ah se vão.

Sob o seu comando, não. Arya bicou seu bolo de aveia. Weese franziu a testa para ela, como se farejasse seu segredo. Num movimento rápido, ela abaixou os olhos para a comida e não se atreveu a voltar a erguê-los.

Uma luz fraca enchia o pátio quando Lorde Tywin Lannister se retirou de Harrenhal. Arya observou a partida de uma janela arqueada, a meia altura da Torre dos Lamentos. Seu cavalo usava uma manta de escamas esmaltadas carmim, e focinheira, e testeira dourados, enquanto o próprio Lorde Tywin ostentava um espesso manto de arminho. O irmão, Sor Kevan, tinha um aspecto quase igualmente magnífico. Nada menos do que quatro porta-estandartes seguiam à frente dos dois, transportando enormes bandeiras carmins ornamentadas com o leão dourado. Atrás dos Lannister vinham seus grandes senhores e capitães. As bandeiras cintilavam e esvoaçavam, um suntuoso cortejo de cor: boi vermelho e montanha dourada, unicórnio purpúreo e galo bantã, javali e texugo malhados, um furão de prata e um malabarista com roupas multicoloridas, estrelas e esplendores, pavão e pantera, chaveirão e punhal, capuz preto, escaravelho azul e flecha verde.

Atrás de todos vinha Sor Gregor Clegane com seu aço cinza, montado num garanhão com um temperamento tão mau como o do cavaleiro. Polliver seguia a seu lado, com o estandarte dos cães pretos na mão e o elmo com chifres de Gendry na cabeça. Era um homem alto, mas não parecia mais do que um rapaz meio crescido quando cavalgava na sombra de seu senhor.

Um arrepio subiu pela espinha de Arya quando os viu passar sob a grande porta levadiça de Harrenhal. De repente percebeu que tinha cometido um erro terrível. Sou tão burra, pensou. Weese não importava, não importava mais do que Chiswyck. Aqueles eram os homens que importavam, eram aqueles que devia ter matado. Na noite anterior podia ter sussurrado a morte de qualquer um, se ao menos não tivesse estado tão furiosa com Weese por lhe ter batido e mentido a respeito do capão. Lorde Tywin, por que foi que não disse Lorde Tywin?

Talvez não fosse tarde demais para mudar de ideia. Weese ainda não estava morto. Se conseguisse encontrar Jaqen, dizer-lhe…

Apressadamente, Arya correu pela escada em espiral, esquecida dos deveres. Ouviu o chocalhar de correntes que a porta levadiça fazia ao ser descida com lentidão, seus espigões afundando-se profundamente no solo… E, então, outro som, um guincho de dor e medo.

Uma dúzia de pessoas chegou lá antes dela, embora nenhuma se aproximasse muito. Arya abriu caminho entre elas, contorcendo-se. Weese estava estatelado nas pedras, com a garganta transformada numa ruína vermelha, olhos abertos, sem ver, na direção de uma escarpa de nuvens cinzentas. A feia cadela malhada estava em pé sobre seu peito, bebendo o sangue que saía pulsando do seu pescoço, e de quando em quando arrancando um pedaço de carne da cara do morto.

Por fim, alguém trouxe uma besta e matou a cadela enquanto esta se entretinha com uma das orelhas de Weese.

– Que coisa maldita – ouviu um homem dizer. – Ele tinha aquela cadela desde filhote.

– Este lugar está amaldiçoado – disse o homem com a besta.

– É o fantasma de Harren, é o que é – lamentou-se a governanta Amabel. – Não durmo aqui nem mais uma noite, juro.

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