– Não posso. Tenho que ir para casa. Para Winterfell.

– Então temos de nos separar, pois também tenho deveres a cumprir – ele levantou sua mão e pôs uma pequena moeda em sua palma. – Tome.

– O que é isto?

– Uma moeda de grande valor.

Arya mordeu-a. Era tão dura que só podia ser de ferro.

– Vale o suficiente para comprar um cavalo?

– Não se destina à compra de cavalos.

– Então, para que serve?

– Isso é o mesmo que perguntar para que serve a vida, para que serve a morte. Se chegar o dia em que quiser voltar a me encontrar, dê essa moeda a qualquer homem de Bravos e diga-lhe as seguintes palavras… valar morghulis.

Valar morghulis – Arya repetiu. Não era difícil. Os dedos fecharam-se com força em volta da moeda. Do outro lado do pátio, ouvia homens morrendo. – Por favor, não vá Jaqen.

– Jaqen está tão morto como Arry – ele falou em tom triste –, e eu tenho promessas a manter. Valar morghulis, Arya Stark. Diga de novo.

Valar morghulis – ela disse mais uma vez, e o estranho que usava a roupa de Jaqen fez-lhe uma reverência e afastou-se pela escuridão, com o manto tremulando. Ficou sozinha com os mortos. Eles mereceram morrer, disse a si mesma, lembrando-se de todos aqueles que Sor Amory Lorch tinha matado no castro junto ao lago.

Os porões sob a Pira do Rei estavam vazios quando voltou para a cama de palha. Sussurrou os nomes para o travesseiro, e quando terminou, acrescentou “Valar morghulis”, numa voz tênue e suave, perguntando a si mesma o que aquilo queria dizer.

Ao chegar a alvorada, Olho Vermelho e os outros estavam de volta, todos, menos um rapaz que tinha sido morto durante a luta, por nenhum motivo que alguém pudesse desvendar. Olho Vermelho subiu sozinho para ver em que pé estavam as coisas à luz do dia, enquanto se queixava sem parar que seus velhos ossos não suportavam degraus. Quando voltou, disse-lhes que Harrenhal tinha sido tomado.

– Aqueles Saltimbancos Sangrentos mataram alguns dos homens de Sor Amory nas camas, e os outros à mesa, depois de ficarem bem bêbados. O novo senhor estará aqui antes do dia terminar, com toda a sua tropa. É do norte selvagem, lá onde está a Muralha, e dizem que é um homem duro. Com este senhor ou aquele, continua a haver trabalho para fazer. Algum disparate, e arranco a pele de suas costas à chicotada – ele olhou para Arya quando disse aquilo, mas ela não lhe disse uma palavra sobre onde estivera na noite anterior.

Durante toda a manhã, ela viu os Saltimbancos Sangrentos tirando dos mortos o que de valor possuíssem e arrastando os cadáveres para o Pátio das Lâminas, onde foi feita uma pira para se verem livres deles. Shagwell, o Bobo, cortou a cabeça de dois cavaleiros mortos e ficou pavoneando pelo castelo, segurando-as pelos cabelos, abanando-as e fazendo-as falar. “De que morreu?”, perguntava uma cabeça. “De sopa quente de doninha”, respondia a segunda.

Arya foi posta para esfregar o sangue seco. Ninguém lhe disse uma palavra diferente do que era comum, mas de vez em quando reparava em alguém olhando-a de forma estranha. Robett Glover e os outros homens que tinham sido libertado devem ter falado a respeito do que acontecera na masmorra, e depois Shagwell e suas estúpidas cabeças falantes começaram com aquilo da sopa de doninha. Teria dito para ele se calar, mas tinha medo de fazê-lo. O bobo era meio louco, e Arya ouvira dizer que certa vez tinha matado um homem por não rir de uma de suas brincadeiras. É melhor que ele feche a boca, senão ponho-o na minha lista com os outros, pensou enquanto raspava uma mancha marrom-avermelhada.

O sol já estava quase se pondo quando o novo senhor de Harrenhal chegou. Tinha um rosto simples, sem barba e comum, notável apenas por seus estranhos olhos claros. Sem ser gordo, magro ou musculoso, usava cota de malha negra e um manto cor-de-rosa com pintas. O símbolo em seu estandarte parecia um homem mergulhado em sangue.

– De joelhos para receber o Senhor do Forte do Pavor! – gritou seu escudeiro, um garoto que não devia ser mais velho do que Arya, e Harrenhal se ajoelhou.

Vargo Hoat adiantou-se:

Fenhor, Harrenhal é feu.

O senhor respondeu, mas em um tom de voz baixo demais para que Arya ouvisse. Robett Glover e Sor Aenys Frey, recém-banhados e vestidos com gibões e mantos limpos, foram se juntar a eles. Após uma breve conversa, Sor Aenys levou-os até Rorge e Dentadas. Arya surpreendeu-se por vê-los ali ainda; de algum modo tinha esperado que desaparecessem quando Jaqen sumira. Ouviu o som áspero da voz de Rorge, mas não o que ele estava dizendo. Então Shagwell lançou-se sobre ela, arrastando-a pelo pátio afora.

– Senhor, senhor – cantarolou, puxando-a pelo pulso –, está aqui a doninha que fez a sopa!

Largue-me – Arya gritou, libertando-se com uma torção do corpo.

O senhor a olhou. Só os olhos se moveram; eram muito claros, da cor do gelo.

– Quantos anos tem, filha?

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