"Para parar a inflação basta deixar de inundar a economia de notas", repetiu Tomás. Cruzou o segundo dedo. "Segundo axioma: a independência do banco central é inegociável. Cabe ao banco central a decisão de imprimir dinheiro. Se o banco estiver às ordens dos políticos, fará o que os políticos quiserem e não necessariamente o que é correcto do ponto de vista económico. Pode dar jeito a um político adoptar uma determinada política monetária que é boa a curto prazo, isto é, que o ajuda a ganhar uns votos antes das eleições, mas é desastrosa a longo prazo.

Por isso os Alemães entendem que o banco central tem de ser independente do poder político. Isso permite-lhe adoptar políticas monetárias adequadas, em vez de estar sujeito aos eleitoralismos do governo do momento."

"Estou a entender", disse Raquel com uma expressão pensativa.

"Está bem visto, sim senhor. Se calhar devíamos fazer o mesmo aqui em Espanha..."

"E fazem. Vocês, os Portugueses, os Italianos.., todos nós fazemos isso agora."

A sua companheira de viagem esboçou uma expressão incrédula.

"A sério?"

"Claro. Chama-se euro."

304

A espanhola soltou uma gargalhada.

"Ah, bom! Só assim!..."

Tomás recostou-se no assento. O comboio fez uma curva em arco pela planície e apontou para leste, posicionando o Sol à direita. uma cortina de luz desceu sobre os dois passageiros e o historiador saboreou o calor suave que jorrava do exterior.

"Os dois axiomas da política monetária alemã revelaram-se um sucesso nas décadas que se seguiram", disse, prosseguindo a sua viagem pela história económica. "Quando dos choques petrolíferos dos anos setenta, por exemplo, a resposta dos Estados Unidos e da maior parte dos países europeus foi aumentar os gastos públicos e a dívida, e imprimir dinheiro.

Em consequência disso, a inflação disparou para a casa dos vinte a trinta por cento e o desemprego subiu. Mas a Alemanha, com a sua obsessão pela estabilidade de preços, recusou-se a imprimir dinheiro e manteve os gastos públicos controlados. Com isso a inflação ficou abaixo dos sete por cento e o desemprego permaneceu reduzido. Ou seja, a economia alemã emergiu vitoriosa do choque entre teorias económicas nos anos setenta."

Impressionada, Raquel esboçou um assobio.

"Muy bien, muy bien..."

"Aliada a uma política monetária restritiva e independente, a Alemanha sempre registou uma forte produção industrial. Para se poderem manter competitivos, os países concorrentes, como a França, a Grã-Bretanha e a Itália, recorreram ao expediente da impressão de dinheiro para desvalorizar as suas moedas. Com o franco mais barato, por exemplo, os Franceses conseguiam vender os seus produtos a um preço mais baixo que os Alemães."

"Então os Alemães tiveram de desvalorizar, não foi?"

"Pois, essa é que é a questão", sublinhou o historiador. "Os Alemães, que não queriam inflação, não desvalorizaram o marco."

"Então como mantiveram a competitividade?"

Tomás abriu as mãos e sorriu, como se se preparasse para revelar o 305

segredo do ovo de Colombo.

"Baixando os salários", revelou. "Com os salários dos trabalhadores mais baixos, os produtos alemães tornaram-se mais baratos. Com a vantagem de o país não sofrer inflação."

A agente da Interpol franziu o sobrolho.

"E a população? E os sindicatos?", estranhou, a incredulidade a impregnar-lhe a voz. "Aceitaram?"

"Tens de perceber que os Alemães aceitam tudo o que não dê inflação", insistiu o português. "Tudo. A hiper-inflação dos anos vinte é um trauma nacional. Além disso, os custos da fusão com a antiga Alemanha de Leste relembraram-lhes a importância da estabilidade monetária. Os sindicatos alemães, que não são liderados por radicais de vistas curtas, perceberam o problema da competitividade e actuaram em articulação com o governo para baixarem o preço dos bens produzidos no país sem ser através do expediente da desvalorização, que provocaria inflação e que o banco central, que era independente, não aceitava."

"Mas como se baixa o preço dos produtos? A cortar salários?"

"Reduzindo o custo da produção", respondeu Tomás. Mostrou três dedos. "Ou seja, baixando os custos de três coisas: matérias-primas, impostos sobre as empresas e salários. O problema é que as matérias-primas têm um preço que não é controlável, portanto esse factor de custo não pode ser reduzido. Os impostos sobre as empresas podem ser reduzidos, mas isso reflectir-se-ia negativamente nas receitas que financiam o estado social. Assim sendo, só restava reduzir os salários. Foi o que eles fizeram."

"Caramba!", exclamou Raquel. "É preciso tê-los no sítio para fazer uma coisa dessas..."

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