A espanhola permaneceu alguns minutos de olhos presos ao exterior, contemplando as casas cor de tijolo e depois as vastas planícies amareladas dos arredores de Madrid. Conhecia bem o seu país e nada do que via era novo. Suspirou de tédio e percebeu que precisava de se distrair.

Encarou Tomás.

301

"Porque não me contas o resto?"

O seu companheiro de viagem, que fechara os olhos para tentar descansar, contraiu o rosto numa expressão interrogativa.

"Qual resto?"

"Lembras-te de me explicares a crise financeira no meu apartamento? Ias contar-me mais alguma coisa quando aqueles.., aqueles idiotas entraram."

"Ah, sim. Ia falar na crise do euro e das dívidas soberanas." "Isso é relevante para a nossa investigação?"

"Claro."

"Então conta-me."

O português sacudiu a cabeça, como se tentasse que o abanão pusesse os miolos a funcionar; para quem ainda alguns segundos antes tentava dormitar não era fácil concentrar-se num tema daqueles.

Felizmente era professor universitário; isso dava-lhe o treino necessário para organizar rapidamente a mente e expor informação.

"Para perceber a crise do euro temos de recuar no tempo", disse, os instintos de historiador como sempre a tomarem conta dele.

"Lembras-te de te ter falado na Primeira Guerra Mundial e na dívida contraída pelos aliados europeus com os bancos americanos?"

"Sim, contaste que foi essa ligação que fez alastrar a Grande Depressão à Europa."

"O que fizeram os aliados europeus para pagar o dinheiro que deviam aos Americanos? Como a guerra tinha decorrido essencialmente em França e na Bélgica, o aparelho industrial alemão permanecera intacto e ameaçava dominar a Europa. Então impuseram à Alemanha reparações de guerra duríssimas, de modo a porem os Alemães a pagar a dívida dos aliados. Por causa dessas reparações, mas também para as boicotar, a Alemanha pôs-se a imprimir notas à doida. Imprimiu tantas que gerou inflação e a seguir hiper-inflação. Presumo que tenhas consciência do que isso significou para o modo de vida diário..."

302

"Os preços subiram."

Tomás riu-se.

"Subiram? Não, dispararam! Vou contar-te uma pequena história que te vai ajudar a entender o que aconteceu. Um estudante sentou-se à mesa de um restaurante em Freiburg e, consultando a ementa, viu que o café custava cinco mil marcos. Pediu o café e, passado um bocado, pediu um segundo café. Dá dez mil marcos, correcto?"

"Sim."

"Quando a conta chegou, no entanto, era de catorze mil marcos.

Ou seja, no período entre o primeiro e o segundo pedido o preço do café tinha subido. É isso a hiper-inflação. Outro exemplo. Um americano foi a Berlim e deu um dólar de gorjeta a um cozinheiro. O

cozinheiro chegou a casa e reuniu a família. Depois de muito debater o assunto, a família decidiu abrir um trust com esse dinheiro e confiar a um banco a melhor forma de investir o dólar." Exibiu o indicador. "Um dólar."

"Madre de Dios! A coisa estava assim tão mal?"

"Péssimo. A vida na Alemanha foi um inferno na primeira metade da década de vinte. As pessoas recebiam o salário diariamente em sacos cheios de notas e iam logo a correr às lojas para comprar os bens porque sabiam que no dia seguinte eles estariam muito mais caros. A hiper-inflação alemã atingiu em 1923 os dezasseis milhões por cento ao ano, e só acabou com a introdução de Uma nova moeda no final desse ano. No rescaldo de toda esta história, os Alemães responsabilizaram as reparações de guerra e os banqueiros judeus pela hiper-inflação. O liberalismo ocidental ficou desacreditado e, alguns anos depois, Hitler subiu ao poder com a promessa de ajustar contas com o passado."

"Muy bien", disse Raquel, querendo adiantar a conversa. "Mas isso tem alguma relevância para a crise do euro?"

"A hiper-inflação dos anos vinte deixou marcas profundas nos 303

Alemães." Mostrou dois dedos. "Depois disso estabeleceram dois axiomas inegociáveis na sua política económica." Cruzou o primeiro dedo. "Primeiro axioma: a estabilidade de preços é fundamental. Os Alemães perceberam que a inflação destrói a riqueza e o tecido social e deve ser evitada custe o que custar. Acontece que a inflação é um fenómeno monetário, isto é, resulta essencialmente da decisão de um governo de imprimir dinheiro. Quanto mais dinheiro for impresso e chegar à economia, mais alta é a inflação. Se o dinheiro deixar de chegar à economia, a inflação pára."

"Ah, curioso", surpreendeu-se a espanhola. "Sempre pensei que a inflação era um fenómeno espontâneo da economia. Nunca tinha percebido que ela é intencionalmente provocada e pode ser deliberadamente travada."

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