"Decarabia fez-nos perder tempo e opções", lamentou-se. "Não se pode esperar que..."
"Decarabia foi recrutado porque vocês não estavam a fazer bem o vosso trabalho", atalhou Magus, sem paciência para ouvir mais desculpas. "Vocês falharam na operação de Nice e, para falar com franqueza, não tenho grande confiança na vossa capacidade de resolver 298
este engulho."
O chefe da segurança não desarmou.
"Nice não foi uni fracasso completo", argumentou. "Neutralizámos os dois abelhudos."
"Mas não recuperaram o DVD!"
"É um facto", reconheceu Balam. "O problema é que Decarabia, com os seus falhanços em Lisboa e Madrid, piorou as coisas. Se nos tivesse permitido actuar, poderoso Magus, teríamos acabado o que ficou incompleto em Nice. Em vez disso foi recrutado esse artolas só porque veio da SAS e, como está à vista de todos, a coisa correu mal."
Consciente de que não era com recriminações que iam resolver o problema, Magus fez um gesto vago com a mão.
"Bem, não vale a pena chorar sobre leite derramado", sentenciou, esforçando-se por olhar em frente. "Estas operações deixaram os nossos inimigos de sobreaviso. A questão é esta: como poderemos agora chegar até eles?" Voltou a passear o olhar pelos seus subordinados. "Alguém tem alguma ideia?"
O silêncio regressou à mesa. Sentindo-se desconfortável por se revelar incapaz de sugerir o que quer que fosse, o chefe de segurança levantou a mão para falar.
"Proponho que mantenhamos a mãe do tipo sob vigilância e esperemos que ele..."
"Não digas disparates", cortou Magus. "A mãe continua sob vigilância, claro, mas o gajo não é parvo e não vai agora voltar a cometer o mesmo erro. Não vale a pena contar com isso."
"Então o que poderemos fazer?"
Era uma boa pergunta. Magus recostou-se na sua poltrona e considerou as várias circunstâncias e possibilidades que condicionavam o caso. O mutismo na sala prolongou-se, apenas quebrado pela ocasional tosse ou arranhar de gargantas. O chefe do Cultus Sathanas parecia a milhas dali, equacionando hipóteses e opções.
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Ao fim de algum tempo, no entanto, pareceu regressar ao presente.
"Só vejo uma maneira de o apanhar", acabou por dizer. "Temos de lhe estender uma armadilha."
XLVII
As portas fecharam com um sopro, a composição pareceu bufar para se encher de coragem e, com um solavanco, começou a rolar pelos carris e ganhou velocidade. De olhos ansiosos presos à multidão que enchia a plataforma da estação de Atocha, Tomás e Raquel só descansaram quando o comboio deixou a gare e acelerou na sua viagem para leste.
"Se tivéssemos apanhado o AVE", resmungou a espanhola, "estávamos lá em duas horas."
O historiador abanou a cabeça.
"Demasiado arriscado", sentenciou. "O comboio de alta velocidade pode estar sob vigilância. O Combinado é mais lento, mas também mais discreto."
A agente da Interpol não discutiu; sabia que o seu companheiro de viagem estava certo. Na verdade tinha consciência de que fizera o protesto porque se sentia mal-humorada e apenas por isso. Não havia Tomás interrompido aquele momento de intimidade para tratar da porcaria do criptograma?
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Que homem fazia uma coisa daquelas num momento desses? Seria obcecado pelo trabalho? Ou não a desejaria o suficiente? Uma coisa assim não lhe parecia possível; nunca homem algum, pelo menos homem amante de mulheres, lhe dera uma tampa. E depois o português obrigara-a a pegar nas coisas e a sair apressadamente de casa, a ir levantar dinheiro antes que a sua conta fosse bloqueada e a apanhar o comboio sem jamais verdadeiramente lhe explicar o seu raciocínio.
"Barcelona é o nosso destino final?"
"Não", disse Tomás. "Depois apanhamos outro comboio." "Para onde?"
O historiador passou os dedos pelos lábios, como se os tivesse selados.
"Digo-te mais tarde."
Raquel fez uma interjeição desagradada.
"Oh, para quê esse teatro?"
"Medidas de segurança", retorquiu ele. "Se há coisa que aprendi nesta história é que só devo dizer o que é estritamente necessário.
Imagina que te punham as mãos em cima..." Voltou a sacudir negativamente a cabeça. "Não, há coisas que é melhor que não saibas.
Quando, e se, chegar O momento, dir-te-ei."
O seu companheiro de viagem estava a aprender depressa, percebeu a agente da Interpol. Numa operação sigilosa era essencial que cada elemento da equipa só soubesse o que precisava estritamente de saber.
Foi por ter noção disso que Raquel, apesar da irritação subliminar, aceitou permanecer no escuro quanto ao destino da viagem. Na sala dos cofres do banco aprendera a confiar em Tomás e percebeu que teria de levar essa confiança até ao limite do razoável.