"Estás a ver a coisa, não estás? Enquanto os vários países da Europa ganhavam competitividade através da desvalorização das suas moedas, baixando assim salários disfarçadamente, a Alemanha ganhava competitividade através da redução directa dos salários. Os europeus em 306
geral, e em particular os Franceses, andavam doidos com isso, até porque os Alemães estavam a pôr a nu a incompetência da governação alheia. Os Franceses perceberam também que o banco central alemão, o Bundesbank, dispunha de imensas reservas e queriam usar a Comunidade Económica Europeia para lhes deitar a mão. Mas não conseguiam."
Levantou a mão, como se assim travasse o curso da história. "Até que, numa bela noite de 1989, o Muro de Berlim caiu."
A espanhola fez uma careta de incompreensão.
"O Muro de Berlim?", interrogou-se. "Que raio tem o Muro de Berlim a ver com esta história?"
"Foi a oportunidade que se abriu à concretização de uma aspiração alemã", disse Tomás. "Desde a Segunda Guerra Mundial que a Alemanha estava dividida em dois países, simbolicamente separados pelo Muro de Berlim. A queda do Muro abriu a possibilidade de os dois países se reunificarem. Qual o alemão que desdenharia a possibilidade de..."
"Tudo isso já eu sei", cortou ela com impaciência. "Mas qual a relevância desse acontecimento para a crise do euro? Isso é que eu não entendo."
"O problema é que a Grã-Bretanha e a França se opunham à unificação alemã, por recearem, e com fundamento, que o regresso da Grande Alemanha provocasse um desequilíbrio na Europa. Com a sua sólida produção industrial, os Alemães tornar-se-iam de novo arrogantes e ameaçadores. Uma coisa dessas era inaceitável."
"Bem... o facto é que a Alemanha se reunificou mesmo."
"Porque a França acabou por ceder", explicou Tomás.
"Mas só o fez em troca de uma cedência alemã."
"Cedência? Qual cedência?"
"A moeda única", revelou o historiador. "Os Franceses disseram aos Alemães: damos-vos a vossa reunificação se vocês nos derem o marco.
Queremos acesso às vastas reservas detidas pelo vosso Bundesbank, exigiram os Franceses. Temos de nos assegurar, acrescentaram eles, de 307
que, uma vez a Alemanha reunificada, ela não volta a ameaçar-nos. A moeda única será a maneira de o conseguir. É ela que vai atar a Alemanha ao resto da Europa."
Pela primeira vez em longos minutos, a espanhola acenou afirmativamente.
"Ah…estou a entender."
"Os Alemães aceitaram o negócio e, três anos depois da queda do Muro de Berlim, a União Europeia assinou o Tratado de Maastricht para criar a moeda única."
"O euro."
Ciente de que o demónio se esconde nos detalhes, Tomás mordeu o lábio inferior.
"Acontece que o trauma da hiper-inflação continuava presente na mente dos Alemães. Além do mais, as suas políticas monetárias mantiveram o desemprego baixo. Porque haveriam eles de pôr isso em perigo? Conhecedores dos excessos dos governantes dos seus parceiros europeus, e receando que os outros países da moeda única conduzissem as habituais políticas económicas eleitoralistas e catastróficas que acabassem por arrastar a Alemanha para o abismo, impuseram algumas condições para viabilizar todo o projecto. Como queriam estabilidade de preços a todo o custo, exigiram no tratado o estabelecimento de um Pacto de Estabilidade com alíneas a prever limites de três por cento do PIB no défice público e de sessenta por cento na dívida pública. Quem violasse estes limites seria automaticamente penalizado. Além do mais, perceberam que, uma vez debaixo do guarda-chuva do euro, muitos países poderiam pôr-se a esbanjar dinheiro dos contribuintes alemães e por isso obrigaram à inclusão de uma cláusula de no-bailout, ou seja, nenhum estado pagará a dívida de um outro que andou a gastar à tripa-forra. A outra coisa que impuseram foi a total independência do banco central, mais tarde designado Banco Central Europeu, com autoridade para imprimir dinheiro e um mandato que privilegiasse a estabilidade dos preços."
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"Todos concordaram, claro."
Tomás esboçou um esgar.
"Por acaso, não. Os Franceses em particular achavam que o banco central não pode ser independente, ou seja, tem de estar às ordens dos políticos. Além do mais, opunham-se à ênfase no combate à inflação. O
mais importante para eles não era a estabilidade de preços, mas o crescimento económico. O confronto entre Franceses e Alemães foi brutal e parece que, numa reunião em Dublin, os ministros das Finanças dos dois países quase andaram à estalada."
A revelação provocou uma gargalhada da espanhola.
"Franceses e Alemães à estalada? Ay ay! E nós a julgarmos que eles são muito civilizados..."