O comboio partiu perto das onze da noite da estação de Sants com destino a Roma e com paragens consecutivas ao longo do caminho, incluindo Florença. O itinerário seguia a linha de costa do Mediterrâneo até Itália, mas, e como era noite cerrada, não havia qualquer possibilidade de apreciarem a paisagem.

"Esta viagem vai ser uma estucha", queixou-se Raquel, ajeitando-se no assento e preparando-se para muitas horas de monotonia. "Se era para viajar durante toda a noite não podias ao menos ter comprado bilhetes nos beliches? Sempre conseguíamos dormir e...", piscou o olho verde, "...fazer mais alguma coisinha."

Tomás riu-se.

"Sua marota, pensas que não pensei nisso?", perguntou com uma 340

expressão cúmplice. "O problema é que estava tudo cheio." Esboçou com os braços um gesto de resignação. "Lá em Atocha disseram-me que, ou ficava com estes lugares, ou nem sequer entrávamos no comboio.

Não tive outro remédio."

A espanhola correu o interior da composição com o olhar; de facto o comboio ia apinhado de gente. A maior parte eram jovens com mochilas e sacos-cama, provavelmente a fazerem o InterRail, mas viam-se também algumas famílias e adultos solitários ou em pares. Havia até duas freiras nos bancos ao lado, com toda a probabilidade a caminho de Roma; tinham guardado nas prateleiras sobre os assentos um saco mal fechado com hábitos brancos a espreitarem do interior.

O tédio arrancou a Raquel um suspiro enfadado. Aborrecida, virou-se para a janela; lá fora estava tudo negro, não havia hipótese de ver fosse o que fosse a não ser alguns pontos luminosos, decerto barcos a cruzarem o mar.

"Convinha preparares-me para o que se vai passar em Florença", acabou ela por dizer. "Seria útil estar dentro de todo o dossiê, não achas?"

"O que queres tu saber?"

Era o que Raquel pretendia ouvir. Sem perder tempo, endireitou-se no lugar e olhou-o com intensidade.

"O euro vai ou não acabar?", perguntou de chofre. "Vamos ou não sair da moeda única? Afinal o que irá acontecer? Esta tarde falaste que te desunhaste, mas não respondeste a estas perguntas..."

Foi a vez de Tomás se ajeitar no assento; o que ela desejava saber não eram coisas de somenos.

"Estás a levantar questões diferentes", constatou. "Com-plementares, é verdade, embora diferentes."

"Sim, mas qual é a resposta?"

O historiador cruzou a perna e pôs-se à vontade.

"O euro irá acabar?", perguntou em tom retórico. "A crer na 341

história, sim. Todas as uniões monetárias criadas no passado sem estarem assentes num estado centralizado fracassaram." Fez com a mão um gesto peremptório. "Todas."

Não era a resposta que Raquel queria ouvir. A espanhola cerrou os dentes e cravou os olhos no companheiro de viagem.

"Esquece o passado", disse. "O euro é diferente de tudo o que foi criado até agora, não é verdade? Se a sua arquitectura for sólida, o que impede a moeda única de ser bem-sucedida?"

"O problema é que a arquitectura não é sólida. Todos os estudos mostram que as áreas monetárias de sucesso têm em comum vários factores determinantes: a mobilidade da força laborai, a flexibilidade de preços e salários, taxas semelhantes de inflação, abertura e diversificação das economias individuais, integração financeira, integração orçamental e integração política. Quando um ou mais destes elementos falha, a estrutura do edifício começa a ceder."

"Bueno... realmente falta-nos um ou outro desses elementos..."

Tomás soltou uma gargalhada.

"Um ou outro? Falta-nos metade, Raquel! Metade! Sabes qual é a mobilidade da força laborai na zona euro? Zero vírgula um por cento! Ou seja, nada. Enquanto nos Estados Unidos um choque económico regional é absorvido pela transferência de trabalhadores para outras regiões do país onde a situação é melhor, na zona euro um choque num país não provoca mobilidade laborai para outro, mas desemprego. E ai do governante que se atreva a sugerir mobilidade da força laborai, é logo acusado de querer desertificar o país! Por outro lado, a flexibilidade de preços e de salários é inexistente na zona euro e o mesmo se pode dizer da integração orçamental e da integração política. Enquanto a América tem uma moeda que coincide com um único estado nacional e a sua população fala uma língua comum e goza de uma cultura partilhada, a zona euro não dispõe de nada disso. Os Americanos usam transferências orçamentais para corrigir desequilíbrios, de tal maneira que Nova Iorque paga para ajudar o Oregon, 342

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