por exemplo. As transferências internas americanas eliminam quarenta por cento do declínio nos rendimentos regionais. Na zona do escudo português, Lisboa pagava para ajudar o Alentejo c, na zona da peseta espanhola, Madrid pagava para auxiliar a Andaluzia. Na zona euro, contudo, nada disso é possível. Se Berlim aceitar pagar para ajudar a Grécia, terá de enfrentar uma rebelião do Bild Zeitung e da população alemã. As pessoas não são solidárias na zona euro porque não têm um sentimento nacional, alimentado por uma língua e uma cultura comuns. Os Alemães estiveram dispostos a ajudar Dresden na reunificação alemã, mas não aceitam ajudar Atenas na unificação europeia."
Raquel baixou a cabeça, esmagada pela evidência. "Pois, tudo isso é verdade."
"Por isso, e a crer em todos os estudos sobre áreas monetárias, o destino do euro está traçado. A moeda única como a conhecemos vai acabar."
A espanhola lançou-lhe um olhar de súplica, quase como se fosse ele o detentor do poder de resolver as insanáveis contradições do euro.
"Mas, Tomás, não haverá uma única hipótese de o euro se aguentar?
Nem uma única?"
O historiador respirou fundo. A responsabilidade que Raquel lhe atribuía, de salvar o euro, era muito maior do que os seus ombros podiam suportar.
"Está a ser feito uni esforço nesse sentido", acabou por dizer. "O
caminho é estreito, e, se tudo for bem executado, o euro sobreviverá. Mas não sei se há estômago para fazer o que tem de ser feito."
O rosto da espanhola contraiu-se numa careta. "O que é preciso fazer?"
"A crise da dívida apanhou a zona euro numa terra-de-ninguém onde ela não pode continuar. Os países têm uma moeda comum mas não partilham um orçamento comum, não respeitam as regras financeiras que eles próprios acordaram nem têm uma governação 343
política centralizada. É uma receita para o fracasso. Os Alemães já perceberam isto e estão a tentar dar um passo em frente: estabelecer penalizações para quem viole as regras financeiras e impor que os orçamentos nacionais requeiram luz verde de Bruxelas para ser aprovados, de modo a criar assim um esboço de orçamento comum.
O curioso é que os países do Club Med, que se afirmam empenhados na sobrevivência do euro, estão a resistir a estas medidas destinadas justamente a salvar o euro. Um contra-senso total."
"E com razão", contrapôs a espanhola. "O orçamento de Espanha tem de receber autorização de Bruxelas? Mas afinal quem manda no meu país? Os Alemães?"
Tomás riu-se.
"Esse é justamente o problema", observou. "Os países do euro querem o euro mas não querem as medidas que viabilizam o euro!
Todos os estudos mostram que uma moeda só funciona num estado com poder centralizado em que haja unidade financeira, orçamental e política. Se os países não estão dispostos a ceder soberania nesses três pontos, o euro não é possível! Ponto final. Entendes isso?"
"Não é possível como? O euro tem sido possível até agora!..."
"Porque até agora os tempos eram bons, já te disse! O teste a uma moeda faz-se nos tempos maus, não quando tudo corre de feição. Acontece que estamos justamente a viver tempos maus e, surpresa! surpresa!, as contradições emergiram e o euro não está a resistir. Temos de fazer uma escolha. Ou damos um passo em frente ou voltamos para onde estávamos antes do euro. Nesta terra-de-ninguém é que não podemos continuar!"
Raquel suspirou, resignada.
"Muy bien, suponhamos que damos mesmo o passo em frente e perdemos mais soberania. O euro salva-se?" O português torceu os lábios.
"Mesmo assim, não sei. Abriu-se uma fenda na zona euro entre 344
países credores e países devedores. Há sobretudo dois problemas suplementares que será necessário resolver. Em qualquer espaço monetário a periferia perde poder para o centro, mas tem de obter algo em troca: transferências orçamentais. É isso que acontece na América e em qualquer país que tenha uma moeda. Nova Iorque transfere dinheiro para o Oregon, Londres para o Sussex. Para que a zona euro seja viável, os Alemães terão de dar um salto mental e aceitar retomar transferências para a periferia de modo a compensá-la pela perda de poder. Será que darão esse salto?"
"Tenho dúvidas..."
"Se não derem, é um problema sério. O segundo problema não é económico, mas político. Relaciona-se com a legitimidade democrática dos decisores. O euro é sobretudo um projecto político. Foi criado para atar a Alemanha e assegurar a paz na Europa, certo?"
"Claro, já explicaste isso. O euro garante a paz."