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Os procuradores inclinaram-se sobre a imagem e, depois de estreitarem as pálpebras num esforço de leitura do que viam, arregalaram os olhos.
"Axel Seth!?"
O juiz bufou.
"Protesto!", vociferou. "Essas imagens são montadas!" Tomás ignorou-o.
"Antes de ser presidente da Comissão Europeia, como sabem, o juiz Seth foi comissário europeu, indicado pela França, e, enquanto tal, esteve envolvido na arquitectura do euro", lembrou. "Vamos então ver o diálogo captado pelas câmaras e pelos microfones escondidos dos senhores Garnier e Chopin."
O português carregou no play e a imagem começou a rolar, com as figuras à volta da mesa a movimentarem os braços e as cabeças, evidentemente em conversa acesa.
"Que porcaria de textos são estes?", questionou na gravação a voz de Axe! Seth. "Eu pedi-vos relatórios a enumerar os custos e benefícios da moeda única e vocês... vocês entregam-me esta porcaria?"
"Mas, juiz Seth, estas são as conclusões a que chegámos", respondeu um dos economistas. "Falámos com muita gente e consultámos todos os estudos sobre uniões monetárias e existe um consenso quanto a essa questão: sem união política, a moeda única europeia não vai funcionar! Não há volta a dar ao problema. uma união monetária beneficia sempre o centro e prejudica a periferia. A união monetária que criou o franco em França, por exemplo, beneficiou Paris e prejudicou a Bretanha e o Midi. Em Espanha a peseta beneficiou Madrid e penalizou a Galiza e a Andaluzia.
Sempre que há uma união monetária, segue-se uma transferência de recursos da periferia para o centro. Isto implica que a união monetária só é viável se o centro depois estiver disposto a fazer transferências financeiras para a periferia, de modo a compensá-la pelas suas perdas. Mas sem união política este passo não será dado e as periferias desintegrar-se-ão."
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"Está a dizer que os países periféricos não aguentam uma moeda única europeia?"
"Aguentam se houver união política que permita as transferências compensatórias", respondeu o economista. "Caso contrário, não aguentam. E há outra coisa: os países periféricos terão de fazer reformas urgentes no sector labora! para suportarem o impacto da competição internacional. Não se esqueça que eles vão entrar numa moeda forte e não a poderão desvalorizar para reequilibrar as suas contas externas. Sem reformas, vão acabar por ser esmagados pelas importações. Além do mais é preciso que no espaço da moeda única haja mobilidade labora!, flexibilidade de salários e de preços e integração orçamental, coisas que não existem agora e não existirão porque não se vislumbram quaisquer planos para as criar."
"Então qual é a vossa conclusão final?"
"A moeda única, tal como está a ser concebida, não se vai aguentar.
À primeira crise poderá desmoronar-se como um baralho de cartas. E se o euro não sofrer um colapso rápido, os países da moeda única irão saltitar de crise em crise numa agonia sem fim até que a união se desfaça."
As imagens mostraram Axel Seth a afagar o queixo com a ponta dos dedos, avaliando o que acabara de escutar.
"Oiçam, isto não pode ser assim", disse o comissário europeu por fim, a decisão tornada. "Refaçam-me estes relatórios e mostrem só as vantagens da criação da moeda única. Parece-me que..."
"Mas, senhor juiz, isso não pode ser feito dessa maneira!", protestou um segundo economista. "Ternos o dever de alertar os decisores e a opinião pública para os grandes perigos da arquitectura que está a ser pensada para o euro. Se escrevermos um relatório nos moldes que nos pede..."
"Silêncio!", cortou Axel Seth num tom agreste. "A decisão está tomada. O projecto da moeda única europeia irá avançar, custe o que custar! Quero um relatório que só mostre as vantagens da união monetária!"
"E o que acontecerá depois, quando o euro entrar em colapso?"
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O comissário europeu encolheu os ombros.
"Quando isso acontecer, meus caros, provavelmente já cá não estaremos", sentenciou com um sorriso despreocupado. "Quem estiver nessa altura no poder que se desenvencilhe! E os contribuintes que paguem, claro!"
A imagem foi a negro e Tomás carregou no stop. Os olhares dos presentes desviaram-se para o juiz Seth, que abanava a cabeça.
"Tudo montado", repetiu. "Nada disso tem valor em tribunal.
Foi tudo montado!"
O historiador ignorou-o de novo.
"A gravação desta reunião é particularmente importante porque mostra que os decisores europeus foram informados dos perigos que a arquitectura pensada para o euro encerrava, e silenciaram os avisos.
Pior ainda, manipularam os relatórios para que apresentassem uma imagem cor-de-rosa da viabilidade e do futuro do euro."