"Esta conversa é muito interessante porque mostra como o esquema estava montado", sublinhou o historiador. "O dinheiro barato gerado pelas taxas de juro muito baixas era enviado para os bancos dos países centrais na Europa. Apesar de o Tratado de Maastricht ter uma cláusula de no-bailout, na qual é explicitado que a zona euro não se responsabiliza pela dívida individual de cada um dos seus países-membros nem a pagará, os bancos europeus e até os bancos centrais, COO o português, convenceram-se de que tal cláusula nunca seria accionada e alimentaram a ficção de que um empréstimo à Grécia era tão seguro como um empréstimo à Alemanha. Os Americanos compraram essa ficção e enviaram dinheiro a juro baixo aos bancos alemães, franceses, austríacos, belgas e holandeses, que o redistribuíram pelos países periféricos, onde foi aplicado em maus investimentos no sector não transaccionável e no alargamento desmesurado do estado social. O euro tornou-se assim um esquema gigantesco de reciclagem de dinheiro do centro da Europa para a periferia, tornando metade do continente credora e a outra metade especuladora, com os bancos a actuarem como intermediários que arrecadaram enormes comissões e aceitaram como garantia propriedades sobrevalorizadas pela bolha do imobiliário. Quando a bolha americana rebentou e o preço dos imóveis caiu, todo este edifício de cartas foi abaixo. Os países do centro, que canalizaram o dinheiro para a periferia e lhe impingiram negócios para financiar indirectamente as suas próprias empresas, viram a maré mudar e o que fizeram eles?
Desataram a acusar a periferia de gastos irresponsáveis. Tinham razão, claro. O que não disseram, no entanto, é que eles próprios partilhavam grandes responsabilidades por esses gastos e que os seus bancos emprestaram dinheiro à doida, sem cuidar de verificar se os periféricos tinham meios de pagar o que deviam. Conclusão, ficou tudo 494
encravado. Os bancos do centro europeu, em especial os franceses e os alemães, tornaram-se grandes credores da periferia. Os periféricos contraíram tanta dívida aos bancos do centro que, se entrarem em default e não pagarem, grande parte desses bancos irá à falência."
Agnès Chalnot trocou um novo olhar com Carlo del Ponte e, preocupada, suspirou.
"Pois é, isto vai ser um processo judicial muito complicado. Não sei como vamos nós..."
O historiador levantou a mão, sinalizando que ainda não tinha acabado, e voltou-se mais uma vez para o computador portátil.
"Calma que ainda há mais", avisou. "Agora vamos ouvir uma outra conversa telefónica, esta entre o primeiro-ministro português em Bruxelas e o seu ministro dos Assuntos Parlamentares em Lisboa. O
chefe do governo está na delegação portuguesa da Comissão Europeia e as imagens foram captadas horas antes de outro conselho europeu."
Carregou no play e as imagens no ecrã, mostrando um homem sentado a uma secretária e agarrado a um telefone fixo, recomeçaram a movimentar-se.
"Ó António, que ideia é essa de estares a preparar uma lei sobre crimes da responsabilidade de titulares de cargos públicos?", questionou o primeiro-ministro em tom alterado. "Estás doido ou quê?"
"Mas, Gonçalo, já falámos sobre isso!..."
"Falámos sim, mas não foi disto exactamente. O Paulo leu-me há pouco algumas cláusulas e... com franqueza, fiquei estarrecido!" A imagem mostrou o chefe do governo a consultar um papel. "Oito anos de cadeia se um governante actuar de forma a beneficiar ou prejudicar alguém de forma indevida? Cinco anos de prisão para o governante que aceitar ou solicitar vantagem patrimonial ou não patrimonial para si ou terceiros? Três anos de prisão por violação de regras urbanísticas? Um ano de prisão para quem viole as normas de execução orçamental?" O primeiro-ministro português levantou os olhos da cábula que consultava. "Tu estás doido, 495
António? Se tudo isto for penalizado, vamos todos para a prisão, caraças!
O que temos feito nós todos os dias senão beneficiar ou prejudicar alguém de forma indevida? E quando pedimos aos financiadores vantagem patrimonial para as contas dos nossos partidos? E as vezes que temos violado as normas de execução orçamental? Uma lei destas não pode ser apresentada, António!
Nem pensar!"
"Ó Gonçalo, já falámos sobre isso!", insistiu o ministro dos Assuntos Parlamentares. "Temos de dar o ar de que estamos a moralizar a coisa, estás a perceber? Isso dá boa imprensa."