"É o levantamento dessa imunidade que tentaremos obter", disse Agnès Chalnot de pronto. "O meu gabinete irá de imediato formalizar um requerimento que entrará em Estrasburgo nesta próxima segunda-feira, com o intuito de..."
"Não seja absurda, madame!", cortou de novo Axel Seth. "Não vê que, embora em diferentes graus, todos os governantes europeus partilham responsabilidades pelo que se passou? Uns porque impingiram dívida aos periféricos, outros porque gastaram o que não podiam, todos porque só se preocuparam com as suas eleições. O
facto é que não há ninguém fora do barco, ma chère. Ninguém. Para me tirarem a imunidade, os governantes europeus terão de tirar a imunidade a si próprios, uma vez que sei de mais e ninguém sairia ileso desta história." Abanou a cabeça com veemência. "Não, madame. Não digo que não haja um escândalo e que nenhumas cabeças rolem e coisa e tal, mas nada de fundamental será feito nem o Parlamento Europeu me retirará imunidade. Os eurodeputados irão lamentar, claro, mas receberão ordens dos seus líderes partidários e será invocada uma qualquer razão técnica ou jurídica para me proteger. Sabe como é, a lei foi concebida cheia de alçapões. Ninguém tocará em mim, fique descansada. O mais que me pode acontecer é ter de me demitir da Comissão Europeia por declarações inapropriadas proferidas em privado, mais nada. Isso, porém, não me preocupa, porque nós, os políticos, cuidamos dos nossos, como já deveria ter percebido. Arranjar-me-ão com facilidade uns cargos generosamente pagos no sector privado e vou safar-me como todos os ex-governantes se safam. Além disso, o mais natural é que se 509
encontre um subterfúgio legal qualquer que impeça que se conheça o conteúdo desse malfadado DVD. Penso até que poderemos arranjar um qualquer presidente de um Supremo Tribunal que, alegando não haver nada de relevante nesse disco, dê ordens para o destruir.
Acreditem, meus caros, há mil maneiras de abafar esta história."
As palavras do juiz abalaram os dois procuradores.
"Mas então, se não é para os responsáveis pela crise serem julgados, para que estamos nós a fazer este trabalho todo?", questionou Agnès Chalnot com indignação. "Para quê este processo judicial? Acha que eu e os meus colegas estamos a esforçar-nos tanto para isto dar em nada?"
"Ainda não percebeu?", perguntou Axel Seth num tom de desdém. "Pauvre idiote! O processo do Tribunal Penal Internacional foi criado para entreter o pagode com irrelevâncias, para dar a impressão de que fazíamos alguma coisa sem fazermos realmente nada. Quando um político quer abafar um caso incómodo, o que faz ele? Manda instaurar um inquérito!" Fez um gesto na direcção de Tomás e Raquel. "O que estragou tudo foram esses dois intrometidos, mais aqueles patetas que tiveram a infeliz ideia de gravar e guardar as nossas conversas no edifício da Comissão Europeia e ainda o cabrão desse Filipe Madureira. Se não fossem estas cinco pedrinhas de areia na nossa máquina, o plano teria corrido às mil maravilhas. Mandávamos umas acusações contra os responsáveis americanos pela crise de 2008, dizíamos umas coisas verdadeiras sobre os mercados financeiros desregulados, haveria uma pequena guerra de palavras entre os dois lados do Atlântico e no fim tudo ficava na mesma."
Fez-se um silêncio embaraçado na sala, o presidente da Comissão Europeia seguro de si, os polícias e os procuradores atarantados e sem saberem como proceder.
"E é mesmo assim que as coisas vão ficar", concluiu Tomás com um sorriso resignado, pegando na deixa largada pelo juiz. "Tudo na 510
mesma."
Axel Seth voltou-se para o historiador e lançou-lhe um olhar divertido.
"Você é que já topou tudo, mon cher professor Noronha", observou com um sorriso trocista a bailar-lhe nos lábios. "Um vivaço dos antigos, sim senhor." Assentiu com a cabeça. "E tem razão, sabe?
Como dizemos lá na nossa terra, plus ça change, plus c'est la même chose!"