E, se é assim em Portugal, também é assim em Espanha, na Grécia, na Irlanda, em Itália... em toda a parte."

A procuradora-geral esbracejou.

"Isso dá centenas de suspeitos, provavelmente milhares! Estamos a falar de um mega processo como nunca foi visto!"

Tomás não respondeu de imediato. Virou as costas, carregou no eject e o computador portátil vomitou o DVD. O historiador pegou no pequeno disco prateado e acenou com ele na direcção da procuradora-geral do Tribunal Penal Internacional.

"Quatro pessoas morreram para que este material chegasse à sua posse", lembrou. "O que gostaria agora de saber é o que vai fazer com o que aqui tem."

A professora Agnès Chalnot fitou-o de olhos arregalados, na incerteza sobre o que responder. Ela, como de resto todos os presentes naquela sala dos Uffizi, tinha plena consciência de que essa era naquele momento a mais importante pergunta de todas.

O problema é que, considerando a imensidão do processo, não tinha resposta para lhe dar.

506

LXXIV

A primeira pessoa a reagir na Sala Botticelli foi Axel Seth. Depois de observar o conteúdo integral cio DVD e de ouvir a exposição de Tomás, e aproveitando a perplexidade das autoridades, o presidente da Comissão Europeia tentou abrir caminho através do cordão de carabinieri formado em torno da congregação satânica.

"Deixem-me passar!", ordenou o juiz francês em tom assertivo, indicando a porta. " Allez, abram alas! Zut, alors! Tenho mais que fazer."

Recuperado do espanto, e hesitando quanto ao procedimento a adoptar, o chefe dos carabinieri lançou um olhar inquisitivo a Marilú, que por sua vez se virou para a procuradora-geral do Tribunal Penal Internacional.

"O que fazemos?", perguntou a responsável da Interpol. "Levamo-lo dentro?"

Agnès Chalnot vacilou; no fim de contas estava em causa a detenção do presidente da Comissão Europeia e juiz no próprio processo em que ela era procuradora-geral. Não se tratava de uma decisão fácil de tomar e precisava de tempo para medir a situação.

"Bem...", balbuciou. "Quer dizer, o melhor é..."

As palavras hesitantes da procuradora-geral foram interrompidas por uma gargalhada de Axel Seth.

"Prender-me?", perguntou o juiz em tom de desafio, voltando-se para trás de mãos na ilharga. "Os senhores querem mesmo 507

prender-me? Sabem quem eu sou e quais os meus poderes? Têm noção de que, se puserem um pé em falso, eu vos trituro vivos?"

"Ninguém está acima da lei", retorquiu a professora Chalnot, talvez com menos convicção do que aquela que gostaria de imprimir às palavras. "No fim de contas o senhor... enfim, também partilha responsabilidades pelo que se passou, não é verdade?" Ganhava coragem à medida que falava. "Este processo é relativo a crimes contra a humanidade cometidos pelos responsáveis políticos e pelos agentes económicos e financeiros no processo que conduziu à crise, e quando começámos já sabíamos que nos íamos meter com peixe graúdo."

Apontou para o seu interlocutor. "O DVD mostra que o senhor também partilha responsabilidades nesta crise. Por isso terá de responder por elas. Se o nosso processo vai indigitar pessoas como todos os presidentes americanos desde Ronald Reagan, por que razão o presidente da Comissão Europeia seria poupado?"

Nova gargalhada de Axel Seth.

"Pobre tola!", exclamou o juiz, abanando a cabeça. "Pensa mesmo que os presidentes americanos e todos os outros que o seu colega Cano dei Ponte hoje nomeou na sessão preliminar alguma vez se sentarão no banco dos réus? É mesmo ingénua! Então não sabe que os Estados Unidos não reconhecem a autoridade do Tribunal Penal Internacional?

Alguma vez os Americanos vão entregar um presidente seu, antigo ou actual, para ser julgado aqui? Deve estar a brincar!"

"Claro que sei que os Americanos não vão entregar ninguém", empertigou-se a procuradora-geral. "O senhor já o disse, eles não reconhecem este tribunal. No que diz respeito aos suspeitos americanos, o processo é sobretudo simbólico."

"Simbólico, disse-o bem!", atalhou o presidente da Comissão Europeia, erguendo o dedo para sublinhar esse ponto. "E simbólico continuará

a

ser,

ma

chère!

Ninguém

com

verdadeiras

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responsabilidades pode ser julgado neste tribunal. Neste ou em qualquer outro, aliás. E muito menos eu! A senhora não sabe que, devido às minhas funções, gozo de imunidade judicial? Para que eu perca a imunidade, o Parlamento Europeu terá de se reunir e votar nesse sentido."

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