"Hmmm… estou a ver. Nove da manhã, não é?"

"Nove em ponto, se fizer o favor. Até amanhã."

Tomás desligou o telefone e permaneceu um longo minuto a passar em revista a conversa. "Matéria confidencial", dissera ela. Que estranho. E a própria perturbação quando a questionara sobre o tema da reunião também não lhe parecia normal. Que raio de assunto delicado seria esse que não podia ser exposto ao telefone?

Incapaz de encontrar respostas nesse momento, abanou a cabeça e sacudiu a perplexidade da mente; cada coisa a seu tempo.

No dia seguinte saberia.

71

VIII

O murmúrio suave do ar condicionado e o ambiente soturno das paredes forradas de madeira conferiam ao secretariado do gabinete do director um ar tranquilo e acolhedor propício à sonolência. Tomás chegara à hora prevista à sua faculdade da Universidade Nova de Lisboa, onde leccionava no Departamento de História, e a secretária do director mandara-o aguardar sentado num sofá tão macio que parecia convidá-lo a uma soneca. O historiador acordara nessa manhã cedo para vencer o trânsito de Lisboa, nos tempos que corriam menos intenso do que noutros anos mas mesmo assim suficientemente irritante, e, mergulhado na modorra doce em que a ambiência suave do gabinete o embalara, fez um esforço por se manter acordado e combater o peso que se lhe formara nas pálpebras, mas sem grande sucesso.

"Senhor professor?", murmurou uma voz feminina. "Senhor professor, está a ouvir-me?"

Como se fosse atingido por um raio invisível, Tomás endireitou-se com um salto e, o olhar desfocado pelo sono, viu Graciete Batalha plantada diante dele.

"Desculpe!", titubeou, atarantado e estremunhado. "Acho que passei pelas brasas!..."

A secretária exibiu um sorriso profissional.

"Fez muito bem", disse no mesmo tom suave. Indicou com um gesto a porta ao lado do secretariado. "O senhor director já o pode 72

atender. Faça o favor de entrar."

O historiador bocejou e pôs-se de pé com vontade de se espreguiçar, mas conteve-se e conseguiu distender os músculos com discrição. Seguindo as indicações da secretária, dirigiu-se à porta do gabinete do director da faculdade e franqueando-a, deparou-se com o seu superior hierárquico sentado numa escrivaninha a assinar papéis.

"Dá-me licença?"

O director da faculdade levantou o olhar por cima dos óculos encavalitados na ponta do nariz.

"Ah, professor Noronha!" Ergueu-se do seu lugar e, de mão estendida, veio acolher o recém-chegado à porta e indicou-lhe um sofá.

"Entre, faça o favor! Esteja à vontade!"

"Obrigado."

Com gestos formais, quase a sentir-se uma múmia dentro de um fato, Tomás instalou-se no lugar indicado e o seu anfitrião sentou-se num cadeirão diante dele.

"Vai um cafezinho?"

"Não, obrigado. Já tomei o pequeno-almoço."

O director prendeu nesse instante a atenção no rosto maltratado do seu subordinado.

"Oh, o que lhe aconteceu?", admirou-se. "Foi atropelado por um camião ou quê?"

O historiador passou a ponta dos dedos pelo inchaço sobre o olho esquerdo e hesitou; poderia aldrabar uma desculpa qualquer, como fizera nos últimos dias sempre que o interrogavam sobre as equimoses na face, mas estava diante do director da faculdade e pareceu-lhe que deveria ser sincero.

"Foi uma chaticezinha que tive na Grécia", explicou. "Fui convidado para fazer uma peritagem a um manuscrito avéstico recentemente descoberto em Atenas e acabei por me ver apanhado numa manifestação contra a crise. Aquilo acabou tudo à batatada e... olhe, acabei por levar 73

por tabela." Encolheu Os ombros num gesto de resignação. "Ossos do ofício, não é verdade?"

"Que horror!", exclamou o director. "O professor já foi ao hospital ver isso?"

"Sim, está tudo bem."

O anfitrião abanou a cabeça com incredulidade, a atenção ainda presa às equimoses que desfiguravam a cara do seu subordinado.

"Veja lá o ponto que as coisas chegaram! Aquilo por lá está mesmo assim tão mal?"

"Nem imagina."

O director calou-se por momentos, possivelmente a meditar nos acontecimentos que abalavam a periferia da Europa. Os dois homens conheciam-se apenas de pequenas conversas de circunstância; no fim de contas tinham origens diferentes e a faculdade era um espaço tão vasto que nem todos os Professores se relacionavam. O director da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa chamava-se João Água e viera do Departamento de Ciências da Comunicação, enquanto Tomás fizera toda a sua carreira académica no Departamento de História. O

convívio entre professores de departamentos diferentes era raro e quase só acontecia em assembleias-gerais ou em reuniões especiais da faculdade.

João Água respirou fundo.

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