Os dedos tocaram num objecto duro e frio, que às apalpadelas não reconheceu. Pegou nele e retirou-o, mas arregalou os olhos de estupefacção e horror quando viu o que segurava nas mãos.
Uma pistola.
No momento em que a porta do quarto de banho se abriu e Filipe emergiu do meio de uma densa nuvem de vapor envolto numa toalha e o rosto aparentemente rejuvenescido, afinal tinha a barba feita e estava enfim penteado, Tomás entregou-lhe as roupas novas e indicou-lhe o quarto de hóspedes.
O amigo reapareceu dez minutos depois e vinha diferente; só as olheiras se mantinham, mas ambos sabiam que só um sono retemperador poderia resolver esse problema.
"Ah, sinto-me como novo!", exclamou Filipe com evidente satisfação. "Desde Itália que não tomava uma banhoca."
Levou a mão ao nariz e inspirou fundo. "Caramba, até já cheiro bem."
O anfitrião levou o seu hóspede para a sala e instalaram-se no sofá. O saco do amigo encontrava-se abandonado no chão, devidamente espalmado como um balão vazio, mas mesmo assim Tomás inclinou-se para ele e puxou-o para junto dos seus pés.
Retirou o envelope com o criptograma que se encontrava no seu interior e estendeu-o a Filipe.
"Isto é teu", disse. "É para guardar ou para deitar fora?"
O amigo segurou o envelope com o criptograma como se fosse uma peça de cristal em risco de se quebrar.
"Isto é muito importante!", exclamou. "Não posso perder estes documentos."
Tomás estranhou a intensidade das palavras do convidado e a sua 102
inusitada preocupação em relação ao envelope com a charada rabiscada, mas nada perguntou; se Filipe não lhe dera explicações adicionais lá teria os seus motivos. Quem era ele para se meter no assunto?
A mão do anfitrião voltou ao interior do saco e reapareceu de imediato com a pistola, que exibiu com movimentos cuidadosos, como se, aquilo sim, fosse um objecto muito delicado.
"O que é isto?"
O rosto de Filipe contorceu-se num sorriso forçado, talvez até embaraçado.
"É um brinquedo."
"Desculpa lá, mas essa não pega." Voltou a exibir o objecto, reforçando a pergunta. "O que é isto?"
O visitante suspirou, vencido.
"É uma arma de defesa."
"Agora andas com uma pistola?"
Filipe estendeu o braço e pegou na arma.
"Não é bem uma pistola", observou, levantando o objecto para que o amigo o visse melhor. "Já reparaste no formato?"
Tomás já havia de facto reparado, mas estudou melhor a arma.
Embora tivesse a configuração de uma pistola, na verdade não parecia uma pistola tradicional. Tinha a coronha, mas o cano era uma abertura, como uma boca vertical, e havia uma faixa amarela a indicar X-26; parecia uma arma futurista retirada de um filme de ficção científica, tipo Blade Runner ou Total Recal!.
"Sim, de facto", concordou, "o formato é estranho."
O dedo de Filipe colou-se à ranhura vertical que se encontrava no lugar do cano.
"Estás a ver isto?", perguntou. "É um arco eléctrico entre dois eléctrodos."
O olhar do anfitrião carregou-se numa expressão inquisitiva.
"Uma arma eléctrica?"
O visitante assentiu.
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"Um taser", identificou. "Actua por electrochoques. O taser faz uma descarga eléctrica que perturba o controlo voluntário dos músculos. Ou seja, quem levar com um tiro de taser fica logo knockout, mas não morre.É uma arma não letal."
O olhar de Tomás manteve-se preso ao taser e a cabeça balançou afirmativamente; experimentara os efeitos daquelas armas uma semana antes em Atenas. Vira-as nas mãos dos polícias gregos, mas apenas de fugida. Só por isso não identificara o objecto no saco do seu convidado.
"Então isso é que é um taser, hem?", perguntou em tom retórico, como se não esperasse resposta. "Pois é, conheço-lhe os efeitos bem de mais. É...
é de facto eficaz."
"Então não é?" Acariciou a arma de electrochoques. "Aqui a X-26 é a minha melhor amiguinha."
Tomás desviou os olhos do taser para o amigo e esboçou um esgar interrogativo.
"Diz-me uma coisa, para que precisas tu de uma arma de defesa?"
Filipe endireitou-se e guardou a pistola eléctrica no cinto, à maneira de um gangster.
"Não te expliquei já que estou em perigo?", lembrou, remetendo para a primeira coisa que dissera ao amigo quando o interpelara na rua. "Ou pensas que cheguei a este estado de indigência absoluta por opção própria?" Abanou a cabeça. "Não, não foi opção. A verdade, meu caro, é que ando em fuga." Voltou a pegar na arma de electrochoques. "E aqui a X-26 é que me protege.
A X-26... e tu, claro."
A conversa entrara numa área fulcral. Para Tomás era evidente que o que se passara na última hora, do inesperado aparecimento do amigo ao seu aspecto indigente e à arma de defesa, tudo isso se relacionava com a fuga que ele acabava de mencionar.
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