"Sou Decarabia, o demónio da estrela dentro do pentáculo mágico e que assume a forma humana sob o teu comando."
"Estarás à altura do teu nome demoníaco, Decarabia?"
"Sim, grande Magus."
Os olhos castanhos faiscantes de Magus aproximaram-se dos azuis de Decarabia, como se quisessem vasculhar no que se escondia para além deles. O mestre estudou-os longamente antes de formular a pergunta seguinte.
"Sob o meu comando, Decarabia, estarás disposto a..." Fez uma pausa, para enfatizar a pergunta. "...a matar?"
A figura da túnica branca nem hesitou.
"Sim, grande Magus. Serei a mão do senhor dos Infernos, o punhal de Ahriman, a flecha de Lúcifer."
O mestre-de-cerimónias abraçou o discípulo em sinal de que o acolhia e a congregação soltou um urro de aprovação e, cantando em coro, entoou "glória a ti, senhor Satanás".
De seguida, Magus fez sinal com a cabeça na direcção de um elemento que se encontrava na primeira fila. A figura encapuzada abandonou o grupo e deixou cair a túnica negra, ficando inteiramente nua. Era uma mulher. Subiu ao altar e, sempre com 98
movimentos lânguidos, deitou-se sobre a estrutura de barriga para cima e pernas abertas.
Com a mulher em posição ritual, Magus voltou-se para o discípulo que acabara de acolher na sua congregação.
"Toma-a, Decarabia", ordenou. "Acede por ela à irmandade do Cultus Sathanas."
Não foi preciso repetir a ordem. Decarabia deixou por sua vez tombar a túnica e, igualmente nu, subiu ao altar e deitou-se sobre a mulher que se lhe oferecia.
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XIII
Passada a surpresa inicial, veio o choque. O aspecto de Filipe era verdadeiramente o de um mendigo; trazia o cabelo sujo e desgrenhado, a barba por fazer, os olhos encovados em profundas sombras de olheiras e, o mais perturbador de tudo, cheirava mal, exalava um fedor ácido a urina e transpiração.
"Que te aconteceu?"
O olhar do amigo dos tempos do liceu emitia um brilho ne rv o so q ue c o ntra sta va c o m o est ad o d e fa diga geral.
"Preciso de ajuda..."
A atenção de Tomás desceu para as roupas; apresentavam ar de não ser lavadas havia pelo menos um mês. Além disso, o amigo transportava um grande saco já meio roto e conspurcado de nódoas.
"Isso vejo eu", constatou. "Não me digas que também perdeste o emprego!..."
Estavam a meio do passeio e Filipe indicou com a cabeça a porta do prédio onde o seu amigo historiador vivia, uns metros mais adiante.
"Deixas-me entrar?"
A questão nem se discutia. Tomás levou-o para o seu apartamento e deu-lhe o que sobrara do seu almoço, tendo o cuidado de estrelar mais dois ovos. Depois ajudou-o a despir-se e empurrou-
-o para a banheira com ordens de sair dali "mais perfumado que uma donzela".
Enquanto Filipe tomava banho, decerto o primeiro em muito tempo, o anfitrião atirou as vestimentas imundas para o cesto e foi 100
buscar roupa lavada para lhe emprestar. Depois pegou no saco que ele trouxera e abriu-o, à procura de mais coisas para limpar. O saco estava de facto repleto de trapos malcheirosos, que Tomás também deitou no cesto da roupa suja. A empregada, que aliás teria de despedir devido à sua nova situação de desempregado, vinha todas as quintas-feiras e nessa semana teria pelos vistos trabalho acrescido.
Voltou ao saco para procurar outras coisas que requeressem limpeza. Apenas encontrou um envelope com uma estranha sequência de letras rabiscadas no lugar do remetente.
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HERTATO.
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"Que raio de charada!..."
Era incrível ver ali uma coisa daquelas feita pela mão do seu velho amigo Filipe Madureira; afinal tinha sido com ele que ganhara o gosto das charadas e dos criptogramas, muitos anos antes, andavam os dois no liceu de Castelo Branco. Adolescentes e criativos, preenchiam o ócio forçado das longas férias de Verão com um jogo que eles próprios inventaram; um escondia um livro ou um qualquer "tesouro" e ocultava o itinerário numa charada que o outro tinha de desvendar. A tarefa era sempre entregue com as palavras "tens uma missão, soldado", ao que o jogador respondia "sim, meu capitão", fazendo continência antes de partir para resolver o mistério. Tomás sorriu perante a lembrança desses tempos; se a memória não o traía, era ele quem ganhava quase sempre.
As imagens do passado desfizeram-se-lhe na mente como uma nuvem de pó que a aragem dispersara com brusquidão; não era o momento adequado para se perder em reminiscências da juventude.
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Não querendo vasculhar nos segredos do amigo, pousou o envelope no chão e voltou a deitar a mão ao saco, pondo-se a remexer o interior.