"Fuga de quê?", quis saber. "Andas a fugir de quem?"
O visitante emudeceu, os olhos semicerrados e fixos no infinito, como se ponderasse o que queria ou podia dizer.
"Receio que não te possa contar nada", acabou por dizer.
"Desculpa, mas é melhor para ti."
O olhar de Tomás saltitou entre o taser e o amigo, na dúvida sobre se aceitaria manter-se na ignorância. A verdade é que ele já o arrastara para o seu problema, fosse ele o que fosse. Tinha o dever de o ajudar mas não tinha o direito de saber porque o ajudava? A posição não lhe parecia razoável. Por outro lado, nutria a convicção de que devia confiar no amigo; se ele achava melhor nada revelar sobre as suas circunstâncias, porque não aceitar isso?
"Está bem", acabou por concordar. "Mas tenho aqui um problema para resolver."
"Então?"
"Preciso de ir amanhã a Coimbra ver a minha mãe", revelou. "Ela sofre de Alzheimer desde os tempos em que... olha, desde a última vez que nos vimos, na Austrália, lembras-te? Desde essa altura que ela está internada num lar e ainda não a fui ver depois de ter regressado da Grécia. Além do mais telefonaram-me do lar e precisam de falar comigo. A viagem até não me dá muito jeito. Desde que perdi o emprego tenho andado atarefado a..."
O visitante abriu a boca, chocado com a novidade.
"Perdeste o emprego?"
Tomás esboçou com os braços um gesto de resignação.
"É a crise, o que queres tu? A faculdade teve de fazer cortes no quadro docente e... olha, ando à procura de trabalho."
"Ah! E agora?"
"E agora tenho de ir lá vê-la." Hesitou, uma ideia a formar-se na mente. "Olha lá, porque não vens comigo? Partimos pela manhãzinha e voltamos ao fim da tarde. Era bom para desanuviares.
105
São duas horas para ir e outras duas para voltar. Vou dar boleia a um tipo que conheci no centro de emprego e juntavas-te a nós."
Filipe anuiu de imediato.
"Conta comigo", disse. "Dar um passeio a Coimbra parece-me muito melhor do que ficar aqui fechado em tua casa."
O anfitrião ergueu-se com um movimento enérgico.
"Então está combinado!", exclamou, encerrando o assunto. "Saímos amanhã pelas oito, está bem?"
Cruzou a porta da sala para o corredor e encaminhou-se para o escritório, onde tinha assuntos a ultimar, em particular a burocracia relacionada com o lar onde a mãe se encontrava hospedada.
"Tomás!"
A voz do amigo travou-o a meio do percurso. Deu meia volta e espreitou pela porta de acesso à sala de estar.
"Que foi?"
Filipe esboçou um sorriso caloroso.
"Obrigado."
"Não tens nada que agradecer."
A mão do convidado desceu para o taser que se encontrava anichado no cinto das suas calças.
"Acho que te devo uma explicação por isto, mesmo que simples", disse. "Tu merece-la."
"Ah, não. Não te preocupes."
"Não, a sério", insistiu Filipe. "Não te posso dar pormenores, isso só serviria para agravar as coisas, mas é importante que saibas que a minha presença na tua casa pode constituir um perigo para ti."
Apesar de previsível, a informação esmurrou Tomás com a força de uma ameaça por fim verbalizada. O anfitrião permaneceu um longo instante a fitar o seu interlocutor, tentando ler-lhe os olhos e perceber o verdadeiro alcance do que acabara de lhe dizer.
"De que perigo estás a falar?"
106
O convidado respirou fundo; parecia evidente que vivia um conflito interior. Ou nada dizia e tudo ficaria na mesma ou dizia alguma coisa e corria o risco de perder o porto de abrigo em que se transformara a casa do seu anfitrião. A decisão de levantar uma ponta do véu da verdade, contudo, acabou por prevalecer.
"Andam à minha procura."
107
XIV
A caneta de tinta permanente deslizava pelo documento, rabiscando a assinatura em tinta negra, quando alguém bateu na madeira da porta do gabinete. O homem sentado à secretária ignorou o toque e continuou a garatujar assinaturas; havia muita burocracia a despachar e ele tinha reservado aquela hora para essa função. A batida, suave e seca, voltou a assinalar a presença de alguém do outro lado da porta; era um toque-toque mudo mas inequívoco.
O homem das assinaturas suspendeu a caneta e respirou fundo, desagradado com a interrupção.
"O que é?", rosnou em direcção à entrada do gabinete, a irritação a espreitar-lhe na voz. "Que se passa?"
A porta abriu-se devagar, quase a medo, e um homem engravatado espreitou para o interior.
"Poderoso Magus, perdoe a interrupção", disse o homem num tom submisso, receando até fitar o chefe nos olhos. "Está muito ocupado?"