"Aqueles olhinhos de chocolate, aqueles lábios suculentos, aquele sorriso de sansardoninha... ui, a miúda estava mesmo a pedi-las!" Deu-lhe um empurrão amigável no ombro. "Ou me engano muito ou em breve vais fazer-te ao piso. Estou mesmo a ver o filme..."
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"Cala-te, pá!"
Filipe voltou a rir-se, divertido com a reacção do velho companheiro de tropelias do liceu. Sabia que tocara num ponto fraco e não tencionava largá-lo tão cedo.
"Diz lá que não achas a moça uma brasa?", atirou, sempre a provocar. "Hã? Ora diz lá, se és capaz..."
Tomás manteve os olhos fixos na estrada, sem sorrir, as mãos agarradas com força ao volante, o semblante de quem ia concentrado; não se sentia com vontade de brincar.
"Estou preocup ado com a minha mãe", acabou por desabafar, mudando o rumo à conversa. "Cortaram-lhe a pensão e estou no desemprego. Ou seja, há menos dinheiro e preciso de pagar o lar.
Vou ter de mexer nas minhas poupanças, que já não são muitas.
Como é que um gajo se safa?"
A pergunta não obteve resposta imediata. Filipe endireitou-se no seu lugar, o tema era sério, incompatível com o registo de graçola inofensiva com que falara da directora do lar. O carro entrou na auto-
-estrada e acelerou em direcção a Lisboa, proporcionando-lhes a pausa que o problema requeria.
"Nada disso vai melhorar, aviso-te já", disse por fim o amigo. "É
bom que te mentalizes."
"Não vai melhorar como? Achas que não arranjo emprego?"
"Arranjas, fica descansado. Todos os estudos mostram que as pessoas mais qualificadas conseguem safar-se em períodos de crise. O
desemprego atinge mais duramente aqueles que não têm estudos, não aqueles que os têm."
"Eu sei", disse o condutor. "Então porquê o teu pessimismo?"
Com os olhos postos nas casas espalhadas pelos montes ao lado da auto-estrada, Filipe passou a língua pelos lábios para os molhar.
"O meu pessimismo refere-se à pensão da tua mãe."
Tomás respirou fundo, consciente do problema.
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"Eu sei, é uma chatice", bufou. "Isto não vai para melhor. Ela trabalhou durante muitos anos, coitada. Descontou para a reforma a vida inteira, tem direito à pensão e... e... agora que precisa dela cortaram-na."
De novo sentado no banco traseiro, Alexandre inclinou-se para a frente.
"É uma injustiça o que estão a fazer aos idosos", protestou. "É
totalmente indecente!"
"Pois é", concordou Tomás. "Uma situação terrível. Há pessoas a passar muito mal."
"Temos de sair à rua e protestar", insistiu o passageiro que vinha atrás. "Temos de os obrigar a inverter esta política criminosa! O estado tem de assumir as suas responsabilidades e proteger as pessoas.
Temos de obrigar os políticos a aumentar os salários, a subir as pensões, a investir na saúde, na educação e na Segurança Social e a elevar as condições de vida de toda a gente."
"Isso era o ideal, sem dúvida", concordou Tomás. "O problema é que não é assim tão simples, não é verdade?"
"Só não é simples porque não queremos que o seja", afirmou Alexandre num assomo de indignação. "Basta tomar a decisão e assinar a lei, mais nada."
Apesar de abatido, o historiador não conseguiu reprimir um sorriso ténue.
"Ah, quem dera que fosse tão fácil..."
Por momentos calado, Filipe desviou a atenção do que se passava para além da berma da auto-estrada para se virar para trás e fitar Alexandre.
"Infelizmente a vida não é como queremos", sentenciou. "Ela é como é. Também eu gostava de viver para sempre e acho que a morte é uma injustiça. Mas por mais que proteste e esperneie, o facto é que vou morrer. A realidade é o que é, não o que gostaríamos que fosse."
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"Recuso-me a alinhar nesse discurso de resignação. Se a vida é como é, está ao nosso alcance mudá-la. O estado tem o dever de nos proteger a todos e não pode fugir a esse dever!"
Filipe riu-se.
"Já vi que você pertence ao Partido do Estado", ironizou. "Tem as quotas em dia?"
O rapaz fez um esgar de incompreensão.
"Perdão?"
"O Partido do Estado." Voltou-se para Tomás. "Sabes quantos militantes tem, não sabes?"
"Então não sei?", devolveu o condutor com uma expressão conhecedora. "Ora deixa cá fazer as contas." De sobrolho erguido pôs-se a reflectir em voz alta: "O Partido do Estado é constituído por todas as pessoas que dependem do estado, não é verdade? São setecentos mil funcionários das administrações central, regionais e municipais, três milhões e meio de pensionistas, mais de um milhão de desempregados e outro milhão de pessoas que auferem diversas prestações sociais e regalias, coisas que pesam no erário público." Endireitou as sobrancelhas. "Dá seis milhões de pessoas. É o maior partido de Portugal."
Filipe voltou a encarar Alexandre.