"Você já viu?", perguntou. "Isto significa que sessenta por cento dos Portugueses vivem graças ao dinheiro dos contribuintes.

Funcionários públicos, pensionistas, desempregados, pessoas que ganham o rendimento social de inserção, doentes, os muitos membros das clientelas partidárias e todos os que recebem os mais diferentes subsídios e prestações sociais."

"E então?"

"E então? Sabe qual é a percentagem das receitas fiscais gastas pelo estado em pessoal e prestações sociais?" Fez uma pausa para preparar a revelação do valor. "Em 2010 eram noventa e seis por cento."

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"Noventa e...?" Alexandre ficou de boca aberta. "Mas isso é... é quase todo o dinheiro!"

"Pois é! Praticamente todo o dinheiro que os impostos arrecadam em Portugal é derretido em salários, pensões e subsídios das pessoas que vivem à custa do estado."

"E as obras financiadas pelo estado? As auto-estradas, os hospitais, as escolas... as outras despesas todas? De onde vem o dinheiro para pagar isso?"

"Do futuro", respondeu Filipe. "Através das PPP, remetendo o pagamento das obras para um futuro que aliás já chegou, ou pedindo dinheiro emprestado ao estrangeiro, outro futuro que também já chegou, uma vez que estamos neste momento a pagar esses empréstimos a juros incomportáveis. A dívida externa líquida do país passou de cerca de quarenta por cento do PIB em 2001 para cento e dez por cento do PIB quando o FMI cá chegou, dez anos depois, um crescimento médio de doze mil milhões de euros por ano. Ou seja, Portugal passou a sustentar-se com dinheiro que não produzia. É por isso que se diz que vivemos acima das nossas possibilidades. A massa que o estado recebe dos impostos vai toda para as despesas com pessoal e prestações sociais. Não sobra nada."

Sempre de olhos postos na estrada, Tomás abanou a cabeça com tristeza.

"Estão a ver o filme, não estão?", perguntou com sarcasmo.

"Não cortaram as despesas para não perder votos..."

"É evidente. O Partido do Estado tem muita força, meus caros.

Esta situação insustentável era do perfeito conhecimento dos governantes e dos partidos da oposição, não tenham dúvida disso. O

problema é que todos querem ser eleitos e, como sabem, cortar na despesa não dá votos a ninguém. Uma vez que o Partido do Estado soma seis milhões de eleitores, quem der mais dinheiro a quem vive à custa do estado acaba por ganhar mais votos. Entrámos assim numa 150

espiral despesista sem retorno."

Estas palavras foram acolhidas com um gesto de impaciência de Alexandre.

"Isso é tudo conversa neoliberal", considerou. "Essas profecias da desgraça não alimentam ninguém e apenas reflectem uma visão economicista das coisas."

A observação arrancou uma gargalhada a Filipe.

"Ora aí está um discurso típico de quem vive à custa do Partido do Estado", observou. "Sempre que alguém se atreve a fazer contas e a mostrar que algo é economicamente insustentável é de imediato apelidado ńeoliberal´, 'pessimista' e 'profeta da desgraça', um 'economicista' que 'não alimenta a esperança'." Fez um aparte.

"Por 'economicista' entenda-se alguém que sabe somar números e percebe que a realidade não se sustenta em fantasias, claro, e por 'alimentar a esperança' entenda-se 'alimentar a ilusão'." Retomou o tom normal. "Confrontados com a dura e desagradável realidade dos números, o que fizeram os nossos distintos líderes? Disseram: 'Há vida para além do Orçamento!' E assim desvalorizaram o problema e tiraram o tapete de debaixo de quem tentava lidar com ele. Esta lógica atingiu o cúmulo em 2009, já depois do colapso financeiro na América, quando o governo, pouco antes das eleições, baixou o IVA e aumentou os salários da função pública quase três por cento."

"Pois foi", lembrou-se Tomás. "Ganharam as eleições."

"Então não haviam de ter ganho? Quem satisfaz o Partido do Estado ganha." Afinou a voz. "O problema é que a economia não aguenta todo esse despesismo populista. Nos dez anos até 2011, quando o FMI chegou a Portugal para pôr fim ao regabofe, as despesas sociais cresceram mais de dois por cento, enquanto o PIB apenas cresceu..."

"Zero vírgula três por cento", completou o historiador. "Sim, já 151

tinhas dito."

"Essa disparidade entre o forte crescimento da despesa social e o débil crescimento da economia não é despiciendo, meus caros."

"Com certeza que não", admitiu Tomás. "Só se pode distribuir a riqueza que se tem. Se não se cria riqueza, não se pode distribuí-la. Isso é evidente."

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