"É verdade. Mas é ainda preciso fazer outras coisas que o poder não tem conseguido ou querido mudar, como tornar a justiça célere e eficiente, desburocratizar o país a sério, combater a corrupção com legislação eficiente, manter as leis fiscais simples e estáveis durante muito tempo... enfim, um rol de reformas susceptíveis de tornar o investimento interessante e seguro. Qual é o investidor estrangeiro que quer investir em Portugal e assim criar emprego se vê que os impostos lhe comem os lucros, que são precisos quatro anos para obter uma licença, que tem de contratar os arquitectos e os construtores amigos dos governantes ou dos autarcas para conseguir que lhe aprovem os projectos, que se tiver de processar alguém o assunto se arrastará quinze anos nos tribunais? Ninguém mete dinheiro num país assim!

154

Existe, porém, um grande medo de mudar e uma ideologia contra os empresários em Portugal que dificulta a alteração deste estado de coisas.

Além do mais, os próprios empresários portugueses são em geral fracos e pouco ambiciosos, fruto do nosso débil sistema de educação."

"Não tenha dúvida de que os empresários têm grandes culpas no cartório."

Filipe fez uma careta.

"Sem dúvida", reconheceu. "Mas não são só eles. Além do mais, e para lá da enorme dívida pública, existe uma dificuldade muito mais séria a travar o nosso crescimento."

Meteu a mão ao bolso e extraiu uma caneta. Virou o envelope que não largara desde que havia chegado a Portugal e, na face limpa, rabiscou uma equação.

Δ PIB = Δ População + Δ Produtividade

"Isso é um delta", constatou Tomás, reconhecendo o triângulo do alfabeto grego. "Significa variação, não é?"

"Isso mesmo", confirmou o amigo. "A variação do PIB depende da variação da população e da variação da produtividade." Pousou a ponta do dedo na última palavra da equação. "Comecemos pela produtividade."

Voltou-se para Alexandre. "O que é uma pessoa pouco produtiva?"

O passageiro do banco traseiro riu-se; a resposta parecia-lhe óbvia.

"É alguém que trabalha pouco, claro."

Voltando a meter-se na conversa, Tomás abanou negativamente a cabeça.

"Errado", disse o historiador. "Uma pessoa pode trabalhar com uma dedicação intensa durante quinze horas por dia e ser pouco produtiva, enquanto outra pessoa pode trabalhar apenas duas horas e ser muito produtiva."

A correcção surpreendeu Alexandre.

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"O quê?!", contestou. "Que disparate!"

"Pode acreditar", insistiu Tomás. "A produtividade refere-se ao valor do produto criado pelo trabalho, não à quantidade de trabalho. Os Portugueses, por exemplo, trabalham mais do que os Alemães, mas são menos produtivos. Porquê? Porque enquanto um português gasta trinta dias de trabalho para produzir cem garrafas de vinho de dez euros cada, um alemão gasta vinte dias para produzir um Mercedes. Só que o Mercedes vale cem mil euros, enquanto as cem garrafas de vinho valem mil. Ou seja, e apesar de ter trabalhado menos dez dias, o alemão é mais produtivo porque o produto que ele fabricou vale mais do que o produto do português."

"Nem mais", concordou Filipe. "Acontece que, para termos crescimento económico, precisamos de aumentar a produtividade, isto é, temos de fazer coisas de maior valor para o mercado internacional. O

problema é que o nosso sistema de educação é fraco, com índices baixíssimos de aproveitamento em Matemática, e as pessoas não estão a aparecer convenientemente qualificadas nas áreas científicas e tecnológicas."

"Sim, e o estado apenas ajuda o sector de bens não-

-transaccionáveis, enquanto o sector de bens transaccionáveis, que é o que produz a riqueza, ficou ao abandono", apressou-se Tomás a acrescentar. "Além do mais, os estudos mostram que o investimento privado cria mais riqueza do que o investimento público, mas em Portugal o estado faz crowding out do dinheiro da banca, deixando pouco para os privados. Sem dinheiro os privados não investem. Sem investimento... adeus crescimento!" Acenou como se se despedisse. "Temos de aumentar a produtividade se quisermos ter crescimento económico."

Filipe apontou para a equação que redigira no envelope que segurava com os dedos.

Δ PIB = Δ População + Δ Produtividade

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"Atenção que a produtividade é apenas um dos elementos da equação", lembrou. "O outro é a população. Se queremos ter crescimento económico, precisamos de crescimento populacional."

O historiador fez com a mão um gesto vago no ar.

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