"Qual crescimento populacional?", perguntou. "A população portuguesa está a diminuir! À entrada da década de 2010, por exemplo, cada casal em Portugal tinha em média um vírgula três filhos, muito abaixo dos dois vírgula um necessários para garantir a substituição das gerações. Pior ainda, nessa mesma altura as populosas gerações do pós-guerra entraram em idade de reforma, engrossando drasticamente o número de pensionistas no país. Não estamos a ter crescimento populacional, mas decréscimo."

"O que quer dizer que há menos população activa a produzir riqueza para distribuir pela crescente legião de velhos, com as suas reformas e cuidados de saúde caros", atalhou Filipe. "E, como muito bem observaste, o índice de natalidade baixou dramaticamente.

Vinte e seis por cento da população portuguesa no início da década de 2010 era idosa, um valor verdadeiramente astronómico.

Prevê-se que essa taxa atinja em 2050 quase os sessenta por cento."

Alexandre passou a mão pelo cabelo.

"A sério?", escandalizou-se. "Sessenta por cento da população será idosa?!"

"Pois é! Quem é que vai pagar as pensões e os cuidados de saúde cada vez mais caros dessa malta toda? Como é possível ter crescimento económico nessas condições? Repare que a economia pode crescer apesar do problema demográfico, mas para isso seria necessário que a produtividade fosse alta, da mesma maneira que é possível crescer com produtividade baixa, desde que o crescimento demográfico seja grande. Porém, não é possível crescer com baixa produtividade e recuo demográfico."

"A culpa aqui não é só dos políticos", observou Tomás. "A culpa é 157

de cada um de nós, que evita ter filhos. Estamos a cavar a nossa própria sepultura!"

"Em última instância, nós é que somos os verdadeiros culpados de tudo o que se está a passar", concordou Filipe. "Nós é que votamos em políticos que aumentam a despesa, nós é que passamos a vida de mão estendida para o estado, nós é que não estamos a garantir a substituição das gerações e andamos a construir um futuro de velhos."

"Por vezes tendemos a ignorar a história das coisas e fazemos mal", disse o historiador. "É preciso ter presente que as premissas do estado social foram estabelecidas nos anos cinquenta, numa altura em que havia poucos velhos e a esperança de vida era de sessenta e cinco anos. Estabeleceu-se essa idade de reforma na convicção de que pouca gente viveria mais do que isso. Mas com a melhoria das condições de vida e os avanços da medicina a esperança de vida aumentou. Entre 1960 e hoje ela cresceu quinze por cento em Portugal. Além do mais a natalidade caiu. Com a inversão da pirâmide etária, o sistema está à beira de se desmoronar."

"Lá diz o velho princípio de economia", insistiu Filipe, "o que é insustentável não se sustentará."

Os olhos de Tomás largaram a auto-estrada e fixaram pelo retrovisor o companheiro de viagem do banco traseiro.

"Daí que estejam a cortar a pensão à minha mãe, percebeu?"

Sentado ao seu lado, o velho amigo do liceu apontou-lhe o indicador.

"Estás preocupado com a tua mãe?", admirou-se Filipe. "Devias era estar preocupado contigo!" Pousou a mão no peito. "E comigo."

Indicou Alexandre atrás. "E com ele. A tua mãe ainda tem gente que cria alguma riqueza que lhe é entregue em forma de pensão de reforma, mesmo com um corte como o que agora ela sofreu. Os idosos queixam-se hoje destes cortes, que são realmente frios e cruéis, mas o que eles estão a passar não é nada comparado com o que 158

nós vamos passar. Em 1960 havia cem jovens para cada vinte e sete idosos, agora há cem jovens para cerca de cento e trinta idosos. Quem vai criar riqueza para nos pagar a reforma quando chegarmos a essa idade e metade da população do país for velha como nós? Quem?"

"Só se for a imigração em massa", retorquiu Tomás. "De outra maneira..."

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