Um burburinho miúdo enchia a grande sala onde se espalhavam os homens de fato e gravata à conversa uns com os outros enquanto aguardavam o começo da reunião. Uns riam, outros pareciam sisudos, alguns consultavam documentos. Sentado ao centro da grande mesa oval, Magus consultou o relógio. Eram três e vinte e cinco da tarde; daí a cinco minutos daria início formal ao encontro.

Sentiu uma mão pousar-lhe no ombro e virou-se para ver quem o interpelava.

"Peço desculpa", disse o seu homem de confiança em tom obsequioso. "Está ali uma chamada para si."

Magus indicou o telefone negro pousado diante dele, sobre a mesa.

"Então passa-a."

O s u b o r d i na d o f e z u m si na l su b ti l c o m o s olh o s .

"Receio que não seja uma conversa adequada para este local", explicou veladamente. "Se me permite, aconselharia que fosse atender na sala de segurança. Estará mais à vontade."

"Porquê? Passa-se alguma coisa?"

O homem baixou a voz, quase a segredar.

"É uma chamada de... de Lisboa."

A mensagem foi instantaneamente percebida. Magus ergueu-se de imediato do seu lugar e abandonou a sala de reuniões em passo acelerado, acompanhado pelo seu homem de confiança. Percorreram ambos o corredor até aos ascensores. Sem trocarem uma palavra, subiram dois andares e meteram pelo corredor até chegarem à sala de 183

segurança, onde sabiam que nenhuma comunicação podia ser interceptada por ouvidos indiscretos.

"Passa-me a chamada."

Entrou e sentou-se à mesa. Tratava-se de uma sala simples, sem janelas e despojada de decoração, as paredes cobertas por material de isolamento de som. Havia seis cadeiras vazias, a mesa e, pousado precisamente no centro, um telefone branco; à volta estavam ainda espalhadas umas folhas brancas e lápis. Mais nada. As linhas telefónicas eram seguras e todas as manhãs os serviços de segurança faziam uma busca na sala para garantir que não havia microfones nem qualquer outro tipo de escuta. Magus sentia-se perfeitamente à vontade. A única coisa que o afectava era a ansiedade pelas notícias que iria receber.

Esperava fervorosamente que tudo tivesse corrido bem e que...

O telefone tocou.

"Está sim?"

"Sou eu, grande Magus", devolveu a voz do outro lado, identificando-se.

"Decarabia." Baixou a voz tornando-a um tudo-nada lúgubre. "Tenho más notícias."

O líder da organização sentiu um baque no coração. Ah, não, más notícias não! Aquela operação era demasiado importante para sofrer um novo revés.

"Não me digas que o tipo escapou..."

A voz na linha hesitou.

"O nosso alvo? Não, ele foi neutralizado."

Magus contraiu as sobrancelhas, de repente aliviado mas sem perceber o problema.

"Ah, bom. Então qual é o engulho?"

"O alvo não tinha o DVD com ele", devolveu Decarabia. "O envelope desapareceu."

Sentado na sala de segurança, o seu chefe afagou o queixo enquanto digeria a informação.

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"O ideal seria sem dúvida deitar a mão a esse maldito DVD", considerou, falando devagar, a avaliar as consequências do que lhe fora comunicado. "Mas... enfim, se o DVD desapareceu, isso não me parece muito grave. O importante é que está fora de circulação, não é verdade? Isso é que realmente importa."

A conclusão foi recebida pelo seu interlocutor com uma breve pausa desajeitada.

"O problema é o outro."

"Qual outro?"

"O amigo, o historiador", precisou Decarabia. "Aquele Tomás Noronha. Acho que... que ele ficou com o DVD."

Foi a vez de Magus se calar por um instante de perplexidade, chocado com a informação.

"O quê?!"

O operacional engoliu em seco, evidentemente embaraçado com as novidades que se via forçado a comunicar.

"Grande Magus, o senhor tinha razão", disse, num tom submisso, falando muito depressa. "Não percebo como, mas o tipo apercebeu-se de que eu os esperava no apartamento dele e, nem sei bem como foi, mas ele improvisou uma fuga e... e... e mudou de táctica a meio da perseguição e... e..."

Exalou um suspiro constrangido e, de súbito, quase em jeito de conclusão, abrandou o ritmo das palavras. "Receio tê-lo subestimado."

Sozinho na sala de segurança, o chefe deu um salto e pôs-se de pé, incapaz de se conter perante o que acabava de escutar.

"Eu avisei-te, Decarabia!", vociferou para o bocal do telefone.

"Eu avisei-te, porra! Os relatórios que me chegaram eram taxativos quanto a esse tipo e eu avisei-te! Como pudeste ignorar o que te disse?"

"Não ignorei, grande Magus", devolveu o operacional, aflito com a reprimenda. "Mas... enfim, admito que nunca pensei que ele pudesse ter aquela capacidade de improviso numa situação tão desvantajosa. Julguei que os tinha sob controlo mas... enfim. Peço desculpa, não voltará a suceder."

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