Largou a correr, primeiro com prudência, uma vez que não tinha a certeza absoluta de ter saído ileso da colisão, mas quando constatou que estava tudo bem ganhou velocidade e dirigiu-se para o cais dos cacilheiros, uma centena de metros adiante. Deu com Filipe especado à sua frente, atarantado e sem saber o que fazer, e apontou para o cacilheiro que se preparava para largar.
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"Vamos!", disse. "Depressa!"
"Mas... mas... não temos bilhete."
Se não estivesse a correr, Tomás teria revirado os olhos. Quem diabo pensaria em comprar bilhetes numa altura daquelas? Se tivessem de pagar uma multa, pagariam! Que interessava isso perante o homem que andava aos tiros atrás deles para os matar?
"Corre!"
Puxou-o pelo braço, mas nesse instante sentiu-o desfalecer.
"Agh!..."
Ouviu um estampido distante e percebeu que o amigo tinha sido atingido; como sempre, a bala chegara antes do som da detonação da pistola.
"Filipe!", chamou, fazendo força para o obrigar a erguer-se. "Levanta-te!"
Pegou-lhe pela nuca e virou-lhe a cara; estava pálido e os olhos reviravam-se nas órbitas, como uma bússola que tivesse perdido o norte, mas ainda não largara o precioso envelope; devia ser coisa importante, raciocinou Tomás, admirado com a tenacidade com que o amigo segurava o sobrescrito. Espreitou e viu uma mancha vermelha a crescer e a empapar-lhe as costas. Tinha sido atingido ali.
Levantou a cabeça e varreu o horizonte. Viu o homem de negro ao fundo, em pé e a caminhar na sua direcção. Parecia arrastar a perna esquerda, mas isso pelos vistos não o travava. Virou-se para o lado e apercebeu-se de que o cacilheiro ia partir dentro de segundos. O
amigo permanecia prostrado, entre a consciência e a inconsciência. E
era evidente que precisava de cuidados médicos urgentes. O que fazer?
Pensou em procurar ajuda, mas apercebeu-se de que o pistoleiro se aproximava, devagar mas inexoravelmente. Estava fora de questão permanecerem naquelas paragens.
Respirou fundo e levantou Filipe com o esforço de um halterofilista numa final olímpica.
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"Uuuuupa!"
Era pesado o amigo; não admirava que estivesse tão em baixo de forma. Devia comer como um lorpa, o lambão! Caminhando como um ébrio, o peso do corpo que transportava a coarctar-lhe os movimentos, arrastou-se até ao cais e, com um derradeiro e supremo esforço, conseguiu saltar para o cacilheiro.
Já a embarcação tinha partido em direcção a Cacilhas quando os passageiros se aperceberam de que um dos dois últimos passageiros a entrar, aquele que parecia adormecido, tinha afinal as costas em sangue. Os tripulantes quiseram dar meia volta, nem pensar em prosseguirem naquelas condições, mas Tomás explicou que não podia ser, o amigo fora baleado e o atacante estava à espera deles junto ao cais; voltar ao ponto de partida era entregá-los ao assassino.
Tudo aquilo parecia aos tripulantes fruto de uma imaginação demasiado fértil, coisa de alucinado, um enredo de filme americano, mas o estado do passageiro ferido e a mancha de sangue no chão constituíam a prova de que algo de grave realmente acontecera e acabaram por aceitar seguir viagem.
O elemento da tripulação com mais responsabilidades recolheu à cabina e, instantes depois, a sua voz encheu os altifalantes do cacilheiro.
"Senhores passageiros, a vossa atenção", pediu. "Se houver algum médico a bordo, faça o favor de se apresentar à tripulação com a maior urgência. Obrigado."
Por momentos ninguém se mexeu, todos na expectativa de haver algum médico no cacilheiro, até que uma senhora de meia-idade abriu caminho entre os passageiros e aproximou-se do espaço onde Tomás e dois tripulantes se encontravam, com Filipe estendido a seus pés.
"Chamo-me Avelina e sou enfermeira no Hospital de Santa Maria", apresentou-se a mulher. "Como pelos vistos não há nenhum 175
médico, talvez eu possa ajudar."
A oferta foi prontamente aceite. Avelina ajoelhou-se ao lado do ferido e franziu o sobrolho perante o taser que ele escondia no cinto, mas nada disse. Com uma tesoura rasgou a camisa para expor as costas ensanguentadas. À falta de água fervida, pediu água mineral e lavou as costas de Filipe até expor um pequeno buraco escuro na região lombar; tratava-se evidentemente do ponto por onde a bala entrara. Estudou a ferida com atenção e, voltando-se para a cabeça, analisou os olhos mortiços do paciente.
"Então, senhora enfermeira?", quis saber Tomás, ansioso. "O que acha disso?"
Avelina suspirou.