"Embora tenha tido há uns anos uma experiência de alguns meses nos politraumatizados, hoje em dia trabalho sobretudo em pediatria", explicou. "Por isso, acho prudente não fazer nenhum diagnóstico."
A escusa não era aceitável para o historiador.
"Sim, mas o que lhe parece? Ele safa-se?"
A enfermeira mordeu o lábio inferior, relutante em exprimir o que pensava, mas ao mesmo tempo percebia que alguma coisa teria de dizer.
"O senhor é familiar?"
"Não, sou amigo", impacientou-se ele, a irritação a transparecer-
-lhe na voz. "Diga lá o que se passa."
Avelina encolheu os ombros; se lhe pediam com tanta insistência um diagnóstico, ela dá-lo-ia.
"É impossível ter certezas", acabou por dizer. "É preciso fazer-lhe uma TAC para ver quais as áreas que a bala perfurou." Hesitou. "Mas se o projéctil lhe destruiu o fígado, o baço ou o pâncreas... enfim, isso não é nada bom."
"O que quer dizer exactamente com 'nada bom'?"
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Ela voltou a titubear.
"Pode não sobreviver."
O olhar de Tomás desviou-se para o amigo. Custava-lhe acreditar num desfecho daqueles. Seria possível que Filipe tivesse vindo ter com ele a pedir ajuda e acabasse por... por morrer?
"Ele está inconsciente?"
A mão da enfermeira dançou de um lado para o outro. "Meio cá meio lá", disse. "Mas deve ser possível despertá-lo totalmente em caso de necessidade."
Tomás respirou fundo.
"Então faça-o", pediu. "Preciso de falar com ele."
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XXIII
O cais de Cacilhas estava bem à vista do cacilheiro e a embarcação preparava-se já para iniciar as manobras de acostagem quando a enfermeira Avelina se voltou para Tomás e lhe fez sinal de que se aproximasse. O historiador acocorou-se junto à cabeça de Filipe e viu-lhe os olhos acesos de vida. Estava desperto apesar da expressão nublada que lhe turvava o rosto pálido.
"Então pá? Como vai isso?"
O ferido forçou um sorriso.
"Já estive melhor", gracejou com voz débil. "O sacana apanhou-
-me, hem?"
"Sim", confirmou. "Mas vamos agora ao hospital e já vão tratar de ti, fica descansado. Daqui a uns dias estás porreiraço. Vais até dar umas pinocadas às enfermeiras..."
Filipe voltou a sorrir, agora com mais naturalidade.
"Sempre foste um péssimo mentiroso, pá", murmurou. "E isso das pinocadas é mais contigo. Não é por acaso que a malta do liceu te chamava Casanova, grande malandrão." Desfez o sorriso e esboçou uma careta de contrariedade. "Que chatice, isto!" Todo ele estremeceu, como se alguma coisa tivesse acabado de ocorrer, e tentou levantar a cabeça, de repente alarmado. "O meu envelope? Onde está o meu envelope?"
O amigo acenou-lhe com o sobrescrito.
"Calma, está aqui!", disse. "É justamente por causa dele que queria falar contigo. Ao longo deste dois dias não o largaste de modo algum. Nem quando foste baleado. Não é preciso ser um génio para perceber que o conteúdo é precioso." Afinou a voz e 178
aproximou-se mais da cabeça do antigo companheiro do liceu.
"Precisas que o mande a alguém?"
Filipe engoliu em seco e balançou afirmativamente a cabeça.
"Sim."
"Quem?"
O ferido ficou uns segundos calado, como se juntasse energia para responder.
"Ouve com atenção", pediu. "Há uns tempos, dois técnicos franceses de electrónica que trabalhavam na Comissão Europeia, em Bruxelas, vieram ter comigo para me pedir ajuda", disse, falando pausadamente. "Chamavam-se Éric Garnier e Hervé Chopin. Já tinham feito uns trabalhos comigo e sabiam que eu tenho uma ligação ao Tribunal Penal Internacional."
"Tens?"
"Sim, tenho. Era um segredo meu." Respirou fundo. "Não sei se sabes, mas o TPI abriu um processo por crimes contra a humanidade contra quem..."
"... tenha provocado a crise económica", completou Tomás. "Sim, ouvi isso nas notícias. Não me digas que estás envolvido!..."
"Mais do que gostaria", admitiu o amigo. "Graças ao Éric e ao Hervé. Eles andavam nervosos com um material que tinham em mãos.
Um DVD, para ser mais exacto. Achavam que alguém os andava a vigiar e sentiam-se pouco seguros. Decidiram por isso entregar-me o DVD e desaparecer de circulação. Na altura não liguei muito, até porque estava mais envolvido no processo dos crimes contra a humanidade cometidos no Ruanda, mas depois li no jornal que eles foram encontrados mortos num apartamento de Nice com sinais de terem sido torturados."
"Assassinados, portanto."
"Claro. O jornal dizia que a polícia suspeitava de um ajuste de contas da máfia marselhesa, mas... hmm, não me cheira." Fez um novo 179