esgar de dor e a voz tornou-se mais arrastada. "Percebi logo que eles afinal tinham razão para ter medo e que alguém andava mesmo atrás do material que tinham recolhido. Acontece que esse material estava agora na minha posse, era decerto o DVD. Fui ver o que lá se encontrava registado e... fiquei embasbacado. Perante o que ali encontrei caí em mim e tomei consciência de que a seguir viriam no meu encalço. Se o Éric e o Hervé tinham sido torturados, com certeza que se viram obrigados a falar no meu nome. Tinha de me pôr ao fresco. Fugi para Itália e..."
"Viste o DVD?"
Filipe assentiu.
"O conteúdo é explosivo."
O historiador passou os dedos pelo cabelo do amigo; tinha a fronte molhada e o suor deslizava-lhe em gotas pelas têmporas.
"Está bem", murmurou. "Quando ficares melhor vemos tudo isto.
Agora vamos levar-te para o hospital e..."
Filipe abanou a cabeça com as poucas forças que lhe restavam; o olhar começava já a apagar-se.
"Não", sussurrou. "Tens de partir agora."
"Não digas disparates. Não vou a sítio nenhum."
"Tens... tens de partir." Respirou fundo, como se precisasse de recuperar o fôlego. "Eles... eles virão atrás de nós... atrás de ti. Se ficares, eles apanham-te. Entendes?"
"Não te preocupes com isso", tranquilizou-o Tomás. "Vou pedir a protecção da polícia e os tipos não se atreverão a..."
O ferido voltou a sacudir a cabeça.
"A polícia não pode nada", disse, a voz num fio. "Eles são demasiado poderosos. A tua... a tua única hipótese é partires imediatamente. Senão dão cabo de ti."
"Que disparate!..."
O peito de Filipe arfava, o fôlego nas últimas.
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"Há uma pessoa que te pode ajudar". Fez uma pausa para recuperar energia. "Chama-se Raquel... Raquel de la Concha.
Trabalha para a Interpol em Madrid." Desviou o olhar para o sobrescrito. "0 número dela está no envelope." Fez um esforço para sorrir. "Quando a vires vais gostar dela." Nova pausa. "Diz-lhe que não vou poder levá-la à Disneylândia." Um sorriso débil desenhou-se nos seus lábios mas depressa se desfez. "Não confies em ninguém, ouviste? Em ninguém." Fez um esforço para inspirar e expirar. "Mas nela.., nela podes confiar." Nova pausa. "Tens de encontrar o DVD e levá-lo para o Tribunal Penal Internacional. Vai ser essencial para...
para..."
"Vamos os dois ter com a tua miúda."
Os olhos de Filipe já se reviravam nas órbitas, como se se aprestassem a perder o contacto com a realidade.
"Leva o dossiê que está no sobrescrito e lê-o", repetiu. "Leva o... o taser também. Podes precisar dele."
"Vamos os dois, já te disse. Não te abandono."
"Tens de partir", insistiu o ferido. "Não podes ficar aqui. Eles vêm aí e..."
"Achas que te vou deixar sozinho a enfrentá-los? Deves estar a brincar!..."
A expressão do rosto de Filipe recuperou momentaneamente vida e a sua atenção fixou-se no companheiro do liceu.
"Tens uma missão, soldado!", exclamou com súbita voz de comando, num derradeiro assomo de energia. "Cumpre-a!"
A ordem era reminiscente das brincadeiras de juventude entre ambos e Tomás sabia que havia um acordo tácito que recuava a esses tempos, o entendimento de que para tais palavras não havia recurso nem recuo. Uma vez proferidas, a missão estava entregue. Claro que aquilo eram brincadeiras de moços entediados, coisas que no complexo mundo dos adultos não tinham o mínimo valor, mas...
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"Onde encontro esse famoso DVD?"
O ferido tentou falar, mas nenhum som lhe saiu da boca. Em desespero, desviou os olhos para o grosso envelope que o antigo companheiro do liceu tinha entre os dedos e, a mão trémula, quase descontrolada, apontou para a cifra rabiscada numa face.
rabiscada nu
Acto contínuo, a mão tombou no chão e o olhar ausentou-se. Ao perceber que nesse momento se encontrava sozinho, Tomás reprimiu um soluço. Os olhos de Filipe Madureira estavam imóveis, esvaziados de sentido, a fitar um ponto no infinito, paralisados com a expressão vidrada daqueles que tinham perdido a vida.
Com um gesto terno, Tomás passou-lhe os dedos pelo rosto, numa derradeira carícia. Depois pegou no envelope e no taser pousados ao seu lado e ergueu-se devagar, com respeito mudo.
Endireitou-se e, sempre fiel aos rituais da juventude, colou a mão às têmporas e reproduziu a continência que fazia sempre que brincavam às charadas nas longínquas férias de Verão.
"Sim, meu capitão! "
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XXIV