Tirando os sapatos, para não sujarem o tatame limpo e elegante, sentaram meio sem jeito no meio da sala, de pernas cruzadas. André explicara a
Fora servido o saquê. A criada era uma criança, talvez com dez anos, não muito bonita, mas hábil e silenciosa. Raiko despejara o saquê nas taças, primeiro para André, depois para Tyrer, e por último para si mesma. Ela tomara um golpe, André esvazia sua pequena taça, estendera-a, pedindo mais. Tyrer fizera a mesma coisa, descobrindo que o sabor da bebida quente não era desagradável, mas insípido. As duas taças foram enchidas, esvaziadas, enchidas de novo. Mais bandejas, mais frascos.
Tyrer perdera a conta, mas logo se sentira envolvido por um calor agradável, esquecera o nervosismo, observara e escutara, sem compreender quase nada que os outros diziam, apenas uma palavra aqui e ali. Os cabelos de Raiko eram pretos, lustrosos, ornamentados com várias travessas, o rosto coberto por pó-de-arroz branco, nem feio, nem bonito, apenas diferente, o quimono de seda rosa, com carpas verdes bordadas.
— Uma carpa é
— É mesmo? O que aconteceu?
— A história contada pelas cortesãs daqui é de que ele a adorava e deu-lhe dinheiro ao partir, o suficiente para que se instalasse por conta própria... ficaram juntos por dois anos. Pouco depois que Harris voltou para a América, ela desapareceu. Provavelmente se embriagou até a morte ou cometeu suicídio.
— Ela o amava tanto assim?
— Dizem que, no início, quando o
— Que coisa terrível!
— Tem razão, em nossos termos, uma história muito triste. Mas lembre-se de que esta é a terra das lágrimas. Agora ela virou uma lenda, honrada pelas companheiras e por todos que lhe viraram as costas, por causa de seu sacrifício.
— Não entendo.
— Nem eu, nem qualquer de nós. Mas os japoneses entendem.
Era muito estranho, pensara Tyrer. Como aquela pequena casa, aquele homem e aquela mulher, conversando meio em japonês, meio em
—
— Obrigado.
— Não acha bastante agradável aqui?
Um momento de silêncio e André comentara:
— Você é a primeira pessoa que trago aqui.
— É mesmo? Por que logo eu?
O francês girara a pequena taça de porcelana entre os dedos, bebera a última gota, servira-se de mais e se pusera a falar, em francês, a voz suave, o tom afetuoso:
— Porque você é a primeira pessoa que conheci em Iocoama... porque você fala francês, é culto, tem a mente como uma esponja, é jovem, não tem a metade da minha idade, não é mesmo? Tem vinte e um anos e é diferente dos outros, ainda não ficou maculado, como acontecerá dentro de poucos anos.
André sorrira, apertando ainda mais a teia, dizendo apenas parte da verdade, moldando-a à sua vontade.
— Para dizer a verdade, você é o primeiro que já conheci,
— Eu me sentiria honrado em ser seu amigo — assegurara Tyrer, no mesmo instante, envolvido pelo encantamento do francês. — E acho, juro que sempre pensei assim, que deveríamos ser aliados, ingleses e franceses, não inimigos, e...
O
— Basta segui-la, e não se esqueça do que falei.