Como num sonho, Phillip Tyrer se levantara, meio trôpego, e seguira a mulher por um corredor, entrando num cômodo, atravessando-o, passando por uma varanda, entrando em outro cômodo. Raiko gesticulara para que ele ficasse ali e se retirara, fechando o shoji.

Um lampião a óleo com uma copa. Um braseiro de carvão para proporcionar calor. Sombras e trevas, manchas de luz. Futons — pequenos colchões quadrados — estendidos no chão, como uma cama. Uma cama para dois. Colchas felpudas. Dois yukatas, o traje de algodão, estampado, com mangas largas, para se dormir. Uma pequena porta para a sala de banho, iluminada por velas, uma tina alta de madeira, cheia de água fumegante. O cheiro agradável de sabonete. Um banco baixo, de três pernas. Toalhas mínimas. Tudo como André descrevera.

O coração de Tyrer passara a bater ainda mais depressa, e ele forçara a mente a recordar as instruções de André, através do nevoeiro de saquê.

Metodicamente, ele começara a se despir. Casaco, colete, gravata, camisa, camiseta de lã, cada peça dobrada de forma impecável e ajeitada numa pilha, num processo cada vez mais nervoso. Tyrer sentara, contrafeito, tirara as meias, depois a calça, com alguma relutância, e tornara a se levantar. Só ficara com a ceroula de lã. Hesitara por um instante, dera de ombros e tirara a ceroula, dobrando-a com um cuidado ainda maior. Sentindo apele toda arrepiada, fora para a sala de banho. Ali, pegara água da tina, com as mãos em concha, seguindo as instruções, e a derramara sobre os ombros, sentindo um agradável calor. Repetira o gesto, e nesse instante ouvira o shoji sendo aberto. Olhara para trás e murmurara:

— Deus Todo-Poderoso!

A mulher era corpulenta, com antebraços enormes, o yukata sumário, sem nada por baixo, exceto uma tanga. Avançara para ele, determinada, com um sorriso fixo, e gesticulara para que se agachasse no banco. Em total embaraço, Tyrer obedecera. A mulher notara de imediato a cicatriz ainda avermelhada em seu braço e sugara a respiração, dizendo alguma coisa que Tyrer não entendera. Ele forçara um sorriso.

Tokaidô.

— Wakarimasu. Eu compreendo.

E depois, antes que Tyrer pudesse impedi-la, ela despejara água sobre sua cabeça — o que era inesperado, não fora incluído em suas instruções — e passara a ensaboá-lo, lavando os cabelos compridos, o corpo em seguida, com dedos firmes, eficientes e insistentes, mas tomando cuidado para não machucar o braço. Pernas, braços, na frente, atrás, e depois lhe oferecera o pano, apontara para a virilha. Ainda em choque, Tyrer limpara essas partes e devolvera o pano, submisso.

— Obrigado — murmurara ele. — Oh, desculpe, domo.

Mais água enxaguou o resto de espuma e a mulher apontara para a tina.

— Dozo! Por favor. André explicara:

— Deve se lembrar, Phillip, que ao contrário de nós, você tem de se lavar e se limpar antes de entrar no banho, a fim de que outras pessoas possam usar a mesma água... o que é bastante sensato, já que a lenha é muito cara, e demora muito para se esquentar a água o suficiente. Assim, não deve urinar na água. Também não pense nela como uma mulher, enquanto estiver na sala de banho, apenas como uma ajudante. Ela o limpa por fora, e depois por dentro, entende?

Tyrer se acomodara na tina. A água estava quente, mas não demais, e ele fechara os olhos, não querendo observar a mulher aprontar o banho. Oh, Deus, pensara ele, angustiado, nunca serei capaz de fazer qualquer coisa com essa mulher! André cometera um grave erro.

— Mas... ahn... não sei quanto pagar... e devo dar o dinheiro a ela antes ou depois?

Mon Dieu! Nunca deve dar dinheiro a qualquer garota, em qualquer lugar, seria o cúmulo da grosseria. Pode negociar de forma implacável com a mama-san, às vezes com a própria garota, mas só depois do chá ou saquê. Ao ir embora, deixe o dinheiro, discretamente, num lugar que ela possa ver. Na Casa das Três Carpas, porém, você não dá dinheiro. É um lugar especial... e há outros assim... apenas para clientes especiais, um dos quais sou eu. Mandarão uma conta para você, duas ou três vezes por ano. Mas preste atenção: antes de irmos para lá, quero que você jure por Deus que pagará a conta no momento em que for apresentada, e que nunca, mas nunca mesmo, levará outro homem ao local, nem falará a respeito.

Assim, Tyrer prometera e jurara, com vontade de perguntar muitas coisas, mas não ousando.

— Essa... ahn... conta, quando será apresentada?

— Quando a mama-san quiser. Já lhe disse, Phillip, você pode ter prazer a crédito durante o ano inteiro, nas circunstâncias certas... mas é claro que sou seu fiador...

O calor do banho quente o envolvera por completo. Mal percebera o barulho da mulher se retirando, para voltar logo em seguida.

— Taira-san?

— Hai? Sim?

Перейти на страницу:

Все книги серии Asian Saga (pt)

Похожие книги