Ele tornou a virar seu cavalo, interrompendo a fuga simulada. No mesmo instante, sua cavalaria, aparentemente dispersa, reagrupou-se em falanges furiosas, investindo contra os oponentes, que recuaram em desordem, o ar frio e úmido, impregnado pelo cheiro de suor, medo e sangue, ardendo em suas narinas. Homens morriam à esquerda e à direita, de ambos os lados, mas Katsumata foi avançando, pouco a pouco, até que o caminho para Ogama se tornou quase desimpedido. Uma vez mais, no entanto, ele foi rechaçado e tratou de fugir — agora uma fuga para valer —, sendo seguido pelos que continuavam vivos. Dos cem homens com os quais iniciara o combate, restavam apenas vinte.
— Chamem nossas reservas! — gritou Ogama. — Quinhentos koku pela cabeça de Katsumata, mil pela cabeça de lorde Sanjiro.
— Sire!
Um dos seus comandantes mais experientes apontou para cima. Sem que ninguém percebesse, no alvoroço da batalha, as nuvens de tempestade haviam ocupado a maior parte do céu e começavam a cobrir a lua.
— Sinto muito, mas a estrada de volta a Quioto é difícil, e não sabemos se àqueles cães astutos nos armaram outra emboscada.
Ogama pensou por um momento.
— Cancele a ordem de combate para a reserva! Pegue cinqüenta guerreiros a cavalo e os pressione até a morte. Se me trouxer qualquer das duas cabeças, eu o promoverei a general, com dez mil koku. Vamos suspender a batalha.
No mesmo instante, os comandantes se afastaram apressados, gritando ordens. Sombrio, Ogama esquadrinhou a escuridão cada vez mais intensa por onde Katsumata e seus homens haviam desaparecido.
— Por meus ancestrais — murmurou ele —, quando eu me tornar tairo
Depois, ele virou seu cavalo e partiu, acompanhado por seus guardas pessoais a caminho de Quioto. E ao encontro de seu destino.
Nessa mesma noite, na legação francesa em Iocoama, a festa e o recital promovidos por Seratard, em homenagem a Angelique, foram um grande sucesso. O cozinheiro se superara: pão fresco, travessas com ostras temperadas, lagosta fria camarões pequenos e grandes, peixe cozido, temperado com gengibre e alho, e servido com alho-poró de sua própria terra, além de
— Magnífico...
— Extraordinário...
— Oh, André! — balbuciou Angelique, em francês, de seu lugar de honra, perto do piano, a mente libertada pela música da angústia em espreita permanente. — Foi lindo! Muito obrigada!
Seu leque adejou de uma forma encantadora, os olhos e o rosto uma perfeição, uma crinolina sobre as anáguas, decote profundo, ombros à mostra, a seda verde delicada caindo em cascatas, formando camadas, acentuando ainda mais a cintura estreita.
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Em seguida, mais uma vez, ela virou-se para Seratard, cercada por Norbert Greyforth, Jamie McFay, Dmitri e os outros mercadores, todos vestidos a rigor. camisas de seda com rufos, coletes vistosos e gravatas — alguns trajes novos, mas quase todos velhos, amarrotados, passados às pressas, porque Angelique estaria presente. Havia também alguns oficiais franceses, do exército e marinha, uniformes com alamares, a espada de gala aumentando o esplendor a que não estavam acostumados, além de militares britânicos, igualmente adornados como pavões.
Duas das três outras mulheres da colônia se encontravam ali, na sala iluminada por velas e lampiões a óleo, Mabel Swann e Victoria Lunkchurch. Ambas corpulentas, com vinte e poucos anos, sem filhos, esposas de mercadores, ambas transbordando de ciúme, os maridos detidos a seu lado, encharcados de suor.
— Já chega, Sr. Swann — disse Mabel, com uma fungadela desdenhosa. — Vamos para a cama, com uma boa xícara de chá inglês.
— Se está cansada, minha cara, você e Vic...
— Nós dois vamos embora! E agora!
— Você também, Barnaby — disse Victoria Lunkchurch, o sotaque de Yorkshire tão grande quanto os quadris. — E trate de tirar esses pensamentos sujos da cabeça, antes que eu dê um jeito em você!
— Quem, eu? Que pensamentos?
— Esses pensamentos com aquela Sirigaita francesa, que Deus a perdoe! — acrescentou Victoria, com mais veneno ainda. — Vamos embora!
Ninguém sentiu falta deles, nem percebeu que haviam se retirado. Todos se concentravam na convidada de honra, tentando chegar mais perto; ou se já se encontravam no círculo, tentando impedir que outros os afastassem.