As lágrimas começaram a se derramar. Apesar de sua determinação, ele abraçou-a por um momento, compadecido, depois pôs as mãos em seus ombros, sacudiu-a de leve.

— Pare com isso! — disse ele, permitindo que a voz se tornasse um pouco brava. — Por Deus, pare com isso! Será que não entende que estou tentando ajudá-la?

Alguns aproximavam-se pelo outro lado da rua, mas Poncin percebeu que tinham os passos trôpegos e se concentravam apenas em si mesmos. Não havia mais ninguém por perto, apenas homens se encaminhando para o clube, mais atrás, e os dois se encontravam protegidos pela sombra do prédio. Ele tornou a sacudi-la e Angelique protestou:

— Está me machucando!

Mas as lágrimas cessaram e ela recuperou o controle. André Poncin pensou, friamente, que aquele mesmo processo já fora repetido uma centena de vezes antes, com graus variados de verdade distorcida e violência, com outros inocentes que ele precisara usar em proveito da França, os homens mais fáceis de manipular do que as mulheres. Aos homens, bastava chutá-los nos colhões, ameaçar cortá-los, enfiar agulhas... E as mulheres? Era bastante desagradável tratar as mulheres dessa maneira.

— Está cercada por inimigos, Angelique. Há muitos que não querem que você case com Struan. A mãe dele lutará por todos os meios que...

— Eu nunca disse que íamos casar... não passa de um rumor, apenas um rumor, mais nada!

Merde! Claro que é verdade! Ele a pediu em casamento, não é? — Poncin tornou a sacudi-la, os dedos rudes. — Não pediu?

— Está me machucando, André. É verdade, pediu, sim.

Ele entregou-lhe o lenço, deliberadamente mais gentil.

— Enxugue os olhos. Não resta muito tempo.

Submissa, Angelique obedeceu, recomeçou a chorar, mas logo se controlou.

— Por que você se comporta de uma maneira tão horrível?

— Sou o único amigo de verdade que tem aqui... estou realmente do seu lado, pronto para ajudá-la, o único amigo em quem pode confiar... o seu único amigo sincero, juro, o único que pode ajudá-la.

Normalmente, ele teria dito, com todo fervor, juro por Deus, mas calculou que já a dominara, e reservaria isso para mais tarde.

— É melhor você saber da verdade secretamente. Assim, terá tempo para se preparar. A notícia só vai chegar ao conhecimento de todos aqui dentro de uma semana, o que lhe proporciona o tempo necessário para tornar seu noivado solene e oficial.

— Como?

— Struan não é um cavalheiro? — Poncin teve de fazer um esforço para encobrir o desdém. — Um inglês... isto é, um escocês, um cavalheiro britânico. Eles não se orgulham de sua palavra? Hem? Depois que a promessa se tornar pública, ele não poderá retirá-la, quer você seja ou não uma indigente, independente do que seu pai possa ter feito, independente do que a mãe dele diga.

Eu sei, eu sei, Angelique teve vontade de gritar. Mas sou uma mulher, e tenho de esperar, fiquei esperando, e agora é tarde demais. Bendita Maria, ajude-me!

— Eu não... não acredito que Malcolm me culpe pelo que meu pai fez, nem que dê ouvidos à mãe.

— Infelizmente, Angelique, ele terá de fazê-lo. Está esquecendo que Malcolm Struan ainda é menor de idade, embora seja o tai-pan. Só vai completar vinte e um anos em maio do ano que vem. Até lá, a mãe pode lhe impor todos os tipos de restrições legais, até mesmo um noivado de um ano, de acordo com a lei inglesa.

Poncin não tinha certeza absoluta disso, mas parecia razoável, e era verdadeiro pela lei francesa.

— Ela pode impor restrições a você também, talvez mesmo levá-la aos tribunais — acrescentou ele, com tristeza. — A Struan é uma companhia poderosa na Ásia, que é quase o seu domínio. Ela pode arrastá-la a um tribunal, você sabe o que dizem a respeito dos juizes, todos os juizes, não é mesmo? Pode acusá-la de ser uma coquete, uma impostora, de estar querendo apenas o dinheiro de seu filho ou até pior. Pode descrevê-la de uma maneira terrível para o juiz, você no banco dos réus, indefesa, seu pai um jogador, na bancarrota, um homem que nunca desfrutou de qualquer prosperidade, seu tio na prisão dos devedores, e você sem dinheiro, uma aventureira.

Ela empalideceu.

— Como sabe de tio Michel? Quem é você?

— Não há nenhum segredo, Angelique. Quantos cidadãos franceses existem na Ásia? Não são muitos, não há ninguém como você, e as pessoas adoram futricar. Eu sou apenas André Poncin, mercador na China, mercador no Japão. Nada tem a temer de mim. Não quero nada além de sua amizade e confiança. E quero ajudá-la.

— Como? Estou além de qualquer possibilidade de ajuda.

— Não está, não — murmurou ele, observando-a com toda atenção. — Você o ama, não é mesmo? E seria a melhor esposa que um homem poderia ter, se tivesse a oportunidade, não é mesmo?

— Claro que sim...

— Neste caso, trate de pressioná-lo, suplique, persuada, por todos os meios que puder, para fazer com que o noivado se torne público. Talvez eu possa orientá-la.

Agora, finalmente, ele percebeu que Angelique o escutava para valer, que o compreendia; e foi com extrema gentileza que desfechou o golpe de misericórdia:

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