Na noite anterior, no jantar “francês” de Seratard, numa sala particular do hotel Iocoama, ele sentara ao lado de Angelique e achara sua juventude e aparente frivolidade revigorantes, e seu amor e conhecimento de Paris, os restaurantes, teatros, as conversas de seus jovens amigos, os risos e relatos de passeios pelo Bois e toda a emoção do segundo império haviam-no deixado com a maior nostalgia, lembrando os dias da universidade e o quanto também sentia saudade de sua terra.

Anos demais na Ásia, na China e aqui.

É curioso que esta moça seja tão parecida com minha própria filha. Marie tem a mesma idade, as duas fazem aniversário no mesmo mês, julho, os mesmos olhos, a mesma cor...

Ele se corrigiu: Talvez como Marie. Quantos anos já se passaram desde que rompi com Françoise, deixei as duas na pensão da família, perto da Sorbonne, e parti? Dezessete anos. Quanto tempo desde que as vi pela última vez? Dez anos. Merde, eu nunca deveria ter casado, Françoise grávida ou não. O tolo fui eu, não Françoise, pelo menos ela casou de novo, e agora dirige a pensão. E Marie?

O som das ondas desviou sua vista para o mar. Uma gaivota planava lá no alto. Não muito longe da praia, avistou as luzes da nave capitânia francesa ancorada, e isso rompeu seu encantamento, fazendo com que tornasse a se concentrar.

Era irônico, aquela moça agora se tornava um peão no grande jogo, França contra Inglaterra. Podia ser irônico, mas era a vida. Deixo para amanhã, para depois de amanhã, ou jogo logo as cartas como combinamos, Henri e eu?

— Ah, André — dizia Angelique —, eu me sinto muito feliz esta noite. Sua música me deixou enlevada, levou-me de volta à Opera, de tal forma que posso até sentir o perfume de Paris...

Contra a vontade, ele se sentia fascinado. Por ela ou porque me faz pensar no que Marie poderia ter sido? Não sei e também não importa. Esta noite, Angelique, eu a deixarei em seu balão de felicidade. Haverá tempo suficiente amanhã.

Depois, as narinas de André aspiraram uma insinuação do perfume que ela usava, Vie de Camille, fazendo-o recordar o frasco que mandara vir de Paris, com tanta dificuldade, para sua musume, Hana — a Flor —, e uma raiva repentina acabou com o impulso para a gentileza.

Não havia ninguém bastante perto para ouvir, a High Street se encontrava quase vazia. Mesmo assim, ele falou baixo:

— Lamento ter de lhe contar, mas tenho algumas notícias confidenciais que precisa saber. Não há uma maneira fácil de explicar e, por isso, serei brusco: seu pai visitou Macau há algumas semanas, jogou pesado e perdeu.

Poncin percebeu a palidez súbita. Sentiu um aperto no coração, mas continuou assim mesmo, como planejara com Seratard.

— Sinto muito.

— Jogou pesado, André? O que isso significa?

As palavras saíram quase inaudíveis e ele viu-a de olhos arregalados.

— Ele perdeu tudo, seus negócios, os recursos que você tinha deixado com ele.

Angelique soltou uma exclamação atordoada.

— Tudo? Meus recursos também? Mas ele não podia fazer isso!

— Sinto muito, ele podia, e fez. Está dentro da lei, você é sua filha, solteira além de menor, ele é seu pai, com jurisdição sobre você e tudo o que possui. Mas é claro que você já sabe de tudo isso. Sinto muito. Tem mais algum dinheiro?

Antes mesmo de perguntar, Poncin já sabia que ela não tinha mais nada.

— Sente muito?

Angelique estremeceu, fez um esforço para manter a lucidez, sabendo agora que o segundo de seus grandes terrores se tornara uma realidade, o conhecimento comum rompendo o casulo que formara com tanto cuidado.

— Como soube de tudo isso? — balbuciou ela, com alguma dificuldade para respirar. — Aqueles recursos eram só meus... ele prometeu.

— Seu pai mudou de idéia. E Hong Kong é uma aldeia... não há segredos em Hong Kong, Angelique, e aqui também não. Chegou hoje uma mensagem de Hong Kong, enviada por um associado. Ele descreveu os detalhes... visitava Macau na ocasião e testemunhou o desastre.

Poncin manteve a voz cordial e preocupada, assumindo a atitude de um bom amigo, mas revelando apenas a metade da verdade.

— Ele e eu, nós, nós temos algumas promissórias de seu pai, empréstimos do ano passado, que ainda não foram pagos.

Outro medo abalou Angelique.

— Meu pai... não paga suas contas?

— Infelizmente, não.

Angustiada, ela pensou na carta da tia e teve certeza, agora, de que o empréstimo do tio também não fora pago, e que ele fora para a cadeia porque... talvez por minha causa, ela quis gritar, tentando manter o controle, desejando que tudo não passasse de um sonho. Oh, Deus, o que vou fazer?

— Quero que saiba que se precisar de minha ajuda, basta dizer.

Abruptamente, a voz de Angelique se tornou estridente.

— Ajuda? Você destruiu minha paz... se é mesmo verdade o que diz. Ajudar-me? Por que me disse isso logo agora, quando eu me sentia tão feliz?

— É melhor saber logo, e é melhor que seja eu a lhe contar, em vez de um inimigo.

O rosto de Angelique se contraiu.

— Inimigo? Que inimigo? Por que eu haveria de ter inimigos? Nunca fiz nada a ninguém, absolutamente nada...

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