— Uma esplêndida noite, Henri — disse Angelique.
— Só por sua causa. Ao nos honrar com sua presença, faz com que tudo pareça melhor.
Seratard murmurava esses chavões galantes enquanto pensava: É uma pena que você ainda não seja casada, portanto madura para uma ligação com um homem refinado. A pobre moça tem de suportar um escocês imaturo e bovino, embora rico. Eu bem que gostaria de ser o seu primeiro amante de verdade... seria uma alegria lhe ensinar as coisas.
— Você sorri, Henri? — murmurou ela, subitamente consciente de que seria melhor tomar cuidado com aquele homem.
— Pensava apenas em como seu futuro será perfeito e isso me deixou feliz.
— Ah, quanta gentileza!
— Acho que...
— Miss Angelique, se me permite a ousadia, vamos ter uma corrida no sábado — interveio Norbert Greyforth, furioso por Seratard monopolizar a moça, irritado pela grosseria do homem em falar francês, uma língua que não entendia, detestando-o e a tudo que era francês, à exceção de Angelique. — Será uma corrida nova... ahn... em sua homenagem. Decidimos chamá-la de Copa Angel, não é mesmo, Jamie?
— É, sim — confirmou Jamie McFay, os dois diretores do Jóquei Clube, ambos sob o encantamento de Angelique.— Resolvemos que será a última corrida do dia, e a Struan vai oferecer o prêmio em dinheiro, de vinte guinéus. Poderia entregar o prêmio, Miss Angelique?
— Claro que sim. Será um prazer, se o Sr. Struan aprovar.
— Ficaremos esperando.
McFay já pedira a permissão de Struan, mas ele e todos os homens ao redor especularam sobre as implicações do comentário, embora todas as apostas contra um noivado estivessem suspensas. Mesmo em particular, Struan não lhe dera a menor indicação, apesar de McFay se sentir na obrigação de relatar os rumores.
— Isso não é da conta de ninguém, Jamie. Absolutamente ninguém.
Ele concordara, mas sua inquietação aumentara. O comandante de um navio mercante que entrara no porto, um velho amigo, lhe entregara uma carta da mãe de Malcolm, pedindo um relatório confidencial:
Mas que droga!, pensou Jamie. Estou comprometido por um juramento sagrado a servir ao
Pelo amor de Deus, Jamie, pare de tentar enganar a si mesmo; no fundo, não é ela quem vem controlando Culum e dirigindo a Struan há anos, e nem você, nem qualquer outro, jamais quiseram encarar o fato abertamente?
— Isso é mais do que certo — murmurou ele.
Sentia-se chocado pelo pensamento, que sempre receara escancarar. Subitamente contrafeito, ele se apressou em cobrir o lapso, mas todos ainda se concentravam em Angelique.
A exceção de Norbert.
— O que é certo, Jamie? — indagou ele, sob o burburinho da conversa, com um sorriso indecifrável.
— Tudo, Norbert. Grande noite, hem?
Para seu grande alívio, Angelique atraiu a atenção de ambos.
— Boa noite, boa noite, Henri, senhores — disse ela, sob protestos gerais. — Sinto muito, mas preciso ver meu paciente, antes de me recolher.
Ela estendeu a mão. Com uma elegância experiente, Seratard beijou-a, Norbert, Jamie e os outros fizeram a mesma coisa, embora desajeitados. Antes que qualquer outro pudesse se oferecer como voluntário, André Poncin disse:
— Talvez eu possa escoltá-la até sua casa?
— Claro. Por que não? Sua música me deixou extasiada.
A noite estava um pouco fria e nublada, mas ainda assim bastante agradável, o xale de lã ornamentando os ombros de Angelique, o babado na bainha da saia-balão se arrastando na poeira da calçada de madeira... tão necessária durante as chuvas de verão, que transformava todos os caminhos em atoleiros. Apenas uma pequena parte da mente de Angelique focalizava o momento.
— André, sua música é maravilhosa, e não pode imaginar como eu gostaria de tocar assim — comentou ela, com sinceridade.
— É apenas uma questão de prática, mais nada.
Seguiram para o prédio Struan, todo iluminado, falando em francês, descontraídos, André consciente dos olhares invejosos dos homens a caminho do clube — efusivo, apinhado e convidativo —, atraído por ela, não com desejo ou paixão. Apenas por sua companhia, por seus comentários tão felizes que mal exigiam uma resposta.