— Uma mulher inteligente... e você é inteligente, além de bonita... trataria de casar depressa. Bem depressa.

Struan estava lendo, o lampião a óleo na mesa ao lado da cama proporcionando claridade suficiente, a porta para o quarto de Angelique entreaberta. Sua cama era confortável, e ele se absorvera na história, o camisolão de seda realçando a cor de seus olhos, o rosto ainda pálido e encovado, sem nada da força anterior. Na mesa, havia também uma poção para dormir, cachimbo, tabaco e fósforos, um jarro com água temperada com um pouco de uísque.

— É ótimo para você, Malcolm — garantira Babcott. — É o melhor medicamento que poderia ter na hora de dormir, só que a dose deve ser bem fraca. Melhor do que a tintura.

— Sem isso, passo a noite inteira acordado, e me sinto horrível.

— Já se passaram dezessete dias desde o acidente, Malcolm, e é hora de parar.

Nunca é bom depender de um medicamento para dormir. É melhor parar de vez.

— Tentei uma vez antes, e não deu certo. Pararei dentro de um ou dois dias... As cortinas haviam sido fechadas para a noite, o quarto era aconchegante, o tique-taque do ornamentado relógio suíço era tranquilizador. Era quase uma hora da madrugada, e o livro, Os Assassinatos na Rua Morgue, fora-lhe emprestado naquela manhã por Dmitri, que comentara:

— Acho que você vai gostar, Malc. É o que chamam de história de detetive... e Edgar Allan Poe é um dos nossos melhores escritores. É uma pena que ele tenha morrido em quarenta e nove, o ano seguinte à corrida do ouro. Tenho uma coleção de seus contos e poemas, se você gostar deste livro.

— Obrigado, Dmitri. É muita gentileza sua. Não pode imaginar como me sinto grato por me visitar com tanta freqüência. Mas por que parece tão sombrio hoje?

— As notícias que recebi de casa não são nada boas. Minha família... a situação é terrível, Malc, tudo misturado e confuso, primos, irmãos, tios lutando por lados diferentes. Mas você não está interessado nessas coisas. Tenho uma porção de outros livros, uma biblioteca inteira, para ser mais preciso.

— Continue a falar de sua família, por favor — pedira ele, começando a sentir a dor que experimentava durante o dia. — Eu gostaria de ouvir.

— Está bem. Quando meu avô e sua família emigraram da Rússia, da Criméia, para ser exato... já contei que nossa família era de cossacos?... foram se instalar num lugar chamado Far Hills, em Nova Jersey, e ali cultivaram a terra até a guerra de 1.812... meu avô morreu nela. É também um ótimo lugar para se criar cavalos, e a família prosperou. Quase todo mundo permaneceu em Nova Jersey, mas dois filhos de meu avô se mudaram para o sul, foram viver em Richmond, Virgínia. Quando estive no exército, há mais de quinze anos... Naquele tempo, era apenas o exército da União, não havia essa história de Norte e Sul. Entrei na Cavalaria e fiquei por cinco anos, passei a maior parte do tempo no sudoeste, lutando nas guerras índias, se é que se pode chamá-las assim. Passei parte do tempo no Texas, quando ainda era república, ajudando a combater os índios ali, e mais dois anos depois que o Texas ingressou na União, em quarenta e cinco, estacionado nos arredores de Austin. Foi lá que conheci minha esposa, Emilie... ela também era de Richmond, filha de um coronel da intendência. É um lugar lindo, a região em torno de Austin, mas Richmond é ainda mais bonito. Emilie... quer que eu vá lhe buscar alguma coisa?

— Não, obrigado, Dmitri. A dor já vai passar. Continue, por favor... ouvi-lo me ajuda bastante.

— Tudo bem. Minha Emilie... Emilie Clemm era o seu nome, prima distante da esposa de Poe, Virgínia Clemm, o que só descobri mais tarde, mas é por isso que tenho uma coleção de suas obras. — Dmitri rira. — Poe era um grande escritor mas um bêbado ainda maior. Parece que todos os escritores são vagabundos bêbados e/ou fornicadores... veja o caso de Melville... talvez seja isso que os torna escritores. Pois eu não consigo escrever uma carta sem suar frio. E você?

— Oh, posso escrever cartas... tenho de fazê-lo, e também mantenho um diário, como a maioria das pessoas. Mas estava me falando sobre o tal de Poe...

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