— Ia lhe contar que ele casou com Virgínia Clemm quando ela tinha treze anos... era também sua prima, imagine só!... e viveram felizes para sempre, mas não muito, se era verdade o que os jornais noticiavam e os futriqueiros diziam... Poe era um tremendo filho da puta em matéria de mulheres, mas ela parecia não se importar. Minha Emilie não tinha treze anos quando casamos, mas dezoito, e era uma beldade sulista, como jamais houve outra igual. Já éramos casados quando deixei o exército e entrei na Cooper-Tillman, em Richmond... eles queriam se expandir em armamentos e munição, exportando para a Ásia, um lugar sobre o qual eu aprendera muita coisa, além de matar índios e negociar cavalos. O velho Jeff Cooper achava que armas de fogo e outras mercadorias, despachadas de Norfolk, Virgínia, teriam uma boa aceitação, junto com o ópio, na costa da China, os navios voltando a Norfolk com prata e chá... mas conhece Jeff. A Cooper-Tillman e a Struan são velhas amigas, não é mesmo?
— E espero que assim permaneçam. Continue.
— Não aconteceu muito mais coisa... ou aconteceu tudo. Ao longo dos anos, outros da família foram para o sul e se espalharam. Minha mãe era do Alabama, tenho dois irmãos e uma irmã, todos mais moços do que eu. Billy está agora com o Norte, no primeiro regimento de cavalaria de Nova Jersey... e meu irmão caçula, Janny... recebeu o nome de meu avô, Janov Syborodin... Janny também está na cavalaria, só que no terceiro regimento da Virgínia. É tudo uma loucura... aqueles dois não sabem nada sobre guerra e combate e vão acabar se matando.
— Você... pretende voltar?
— Não sei, Malc. Durante o dia inteiro penso que sim, à noite também, mas de manhã é não, pois não quero começar a matar gente da família, o que terei de fazer em qualquer lado por que lutar.
— Por que saiu dos Estados Unidos e veio para esta terra esquecida de Deus?
— Emilie morreu. Teve escarlatina... houve uma epidemia e ela foi uma das desafortunadas. Isso aconteceu há nove anos... no momento em que íamos ter nosso filho.
— Mas que coisa terrível!
— Tem razão. Você e eu já tivemos a nossa quota...
Struan se encontrava tão concentrado no livro de mistério que não ouviu a porta externa da suíte ser aberta e fechada, suavemente. Também não escutou os passos leves de Angelique, nem percebeu que ela o espiou por um instante, para depois desaparecer. Um momento mais tarde, houve um estalido quase imperceptível, quando ela fechou a porta de ligação entre os dois quartos.
Ele levantou os olhos e prestou atenção. Angelique dissera que daria uma olhada para ver como ele estava, mas não o incomodaria se o encontrasse dormindo. Ou se estivesse cansada, iria direto para a cama, silenciosa como um camundongo, e só o veria pela manhã.
— Não se preocupe, querida — dissera ele, feliz. — Trate apenas de se divertir. Tornarei a vê-la no desjejum. Duma bem, e saiba que eu a amo.
— Também amo você, chéri. Duma bem.
O livro ficara em seu colo. Com esforço, Struan sentou na cama, estendeu as pernas pelo lado. Essa parte ainda era suportável. Mas não levantar-se, o que estava além de sua capacidade. O coração disparou, ele sentiu-se nauseado e recostou-se. Tenho de insistir, não importa o que Babcott diz, pensou ele, sombrio, esfregando a barriga. Amanhã tentarei de novo. Três vezes. Talvez seja melhor assim. Eu gostaria de ficar com ela. E é o que eu faria se pudesse, que Deus me livre.
Quando se sentiu melhor, ele retomou a leitura, só que agora a história não o absorveu tanto como antes, a atenção divagou, a mente se pôs a misturar o relato no livro com imagens de Angelique sendo assassinada, cadáveres por toda parte, ele correndo para protegê-la, tendo outros vislumbres, cada vez mais eróticos.
Ao final, ele largou o livro, marcando o lugar com uma folha de papel que Angelique lhe dera, de seu diário. Fico imaginando o que ela escreve ali, sendo tão diligente. Sobre eu e ela? Ela e eu?
Muito cansado agora. Estendeu a mão para baixar o pavio do lampião e se deteve no meio do gesto. O pequeno copo de vinho com o medicamento parecia chamá-lo. Seus dedos tremeram.
Babcott tem razão, não preciso mais.
Decidido, ele apagou o lampião, ajeitou-se, fechou os olhos, rezando por ela e por sua própria família, para que a mãe lhes desse a bênção, e depois por si mesmo. Ó, Deus, ajude-me a melhorar... tenho medo, muito medo.
Mas o sono não veio de imediato. Virar-se ou tentar encontrar uma posição mais confortável sempre doía, fazendo-o lembrar da