Hiraga levantou-se no mesmo instante. Enquanto vestia a
— Mande-o entrar e mantenha todas as outras pessoas à distância.
O jovem camponês franzino e sujo, com um quimono esfarrapado, rastejou pelo corredor e ficou de joelhos fora da porta.
— Obrigado, lorde, muito obrigado por me receber. — O jovem levantou o rosto, com um sorriso vazio, os dentes da frente faltando. — Obrigado, lorde.
Hiraga lançou-lhe um olhar irritado e depois ofegou, em incredulidade.
— Ori? Mas... é impossível!
Ele observou com mais atenção e constatou que os dentes apenas haviam sido escurecidos, como parte do disfarce, criando uma ilusão perfeita. Mas não podia haver qualquer dúvida de que Ori não era mais um samurai ostensivo: o penacho fora cortado e todos os cabelos atrás e nos lados da cabeça aparados na mesma altura dos fios de duas semanas que cobriam o resto.
— Por quê? — indagou Hiraga, desolado.
Ori sorriu, foi sentar perto dele.
— O
— Não deixei de ser um samurai, mas agora posso passar por qualquer camponês.
O ar deixou a boca de Hiraga num silvo de admiração.
— Tem toda razão. É brilhante.
— Ocorreu-me ontem à noite. Pensava em seu problema, Hiraga.
— Cuidado. Meu nome aqui é Nakama Otami.
— Ah, então é esse! Ótimo! — Ori sorriu. — Eu não sabia como chama-lo, por isso usei o código.
— Já encontraram Todo e os outros?
— Ainda não. Continuam desaparecidos. Devem estar mortos. Soube que Joun foi executado como criminoso comum, mas ainda ignoramos com Todo foi capturado.
— Por que veio aqui, Ori? É muito perigoso.
— Não deste jeito, nem à noite, e eu precisava testar o novo Ori, conversar com você. — Contrafeito, ele passou a mão pela cabeça, com os cabelos começando a crescer, coçou-a. Tinha o rosto raspado. — A sensação é horrível, parece suja, de certa forma obscena, mas não importa. Agora estou seguro, posso ir para Quioto. Partirei daqui a dois dias.
Hiraga olhava para sua cabeça, fascinado, ainda aturdido com a espantosa mudança.
— Se alguma coisa o torna mais seguro, não se deve hesitar, só que agora todos os samurais o tomarão por um homem comum. Como pode usar espadas?
— Quando precisar de espadas, usarei um chapéu. E quanto estiver disfarçado, tenho isto.
Ori enfiou a mão boa na manga e tirou uma pistola de dois tiros. O rosto de Hiraga tomou a se iluminar.
— Ei, brilhante! Onde conseguiu?
— Fujiko. Ela me vendeu, com uma caixa de balas. Um cliente deu a ela quando deixou Iocoama. Imagine só! Uma prostituta de baixa classe com um tesouro assim.
Hiraga pegou a pistola com o maior cuidado, sopesou-a, apontou-a, levantou para ver os dois cartuchos no bronze nos canos.
— Pode matar dois homens com isto, antes de ser morto, se estiver bastante perto.
— Um é suficiente para dar tempo de correr e pegar as espadas. — observou Hiraga.
— Ouvimos falar dos soldados. Eu queria verificar se estava bem.
Hiraga sacudiu a cabeça, relatou o que acontecera de fato, depois falou de Tyrer e a descoberta da hostilidade entre franceses e ingleses, para acrescentar excitado:
— É uma das cunhas que podemos cravar entre eles. Faremos com que lutem e vamos deixar que se matem uns aos outros por nós, hem? Devo ficar aqui, entende? É apenas o começo. Precisamos aprender tudo o que eles sabem, ser capazes de agir como eles, assim poderemos destruí-los.
Ori franziu o rosto, considerando as razões a favor e contra; embora não tendo perdoado Hiraga por obrigá-lo a se humilhar, removendo a cruz da mulher, mas tinha de proteger
— Neste caso, se vai ser nosso espião, terá de se tornar como eles sob todos os aspectos , grudar em sua sociedade como um percevejo, virar um amigo e até mesmo usar roupas de
— Mas por que eles deveriam me aceitar?
— Não deveriam, mas são tolos. Taira será sua ponta de lança. Pode dar um jeito, ordenar. Pode insistir.
— Por que ele faria isso?
— Use Fujiko.
— Como assim?