— Raiko nos deu a pista: os gai-jin são diferentes. Preferem ir para a cama com a mesma mulher. Ajude Raiko a envolvê-lo com uma rede e ele vai virar seu cão fiel, porque será o intermediário indispensável. Diga a Taira, mesmo que esteja furioso com os soldados, que a culpa não foi dele. Voltou à Yoshiwara apesar de todas as dificuldades e arrumou Fujiko para ele na noite de amanhã, “mas seria muito mais simples para mim, Taira-sama, arrumar esses encontros se tivesse roupas europeias para usar, a fim de passar pelas barreiras”, e assim por diante. Faça com que ora que ela se torne disponível, ora não, ponha-o na coleira, e aperte à vontade, entende?

Hiraga começou a rir, baixinho.

— Seria melhor você permanecer aqui, em vez de ir para Quioto. Seus conselhos são muito valiosos.

— Katsumata deve ser alertado. E a mulher gai-jin?

— Descobrirei onde exatamente ela se encontra.

— Ótimo. — O vento aumentava e uma rajada passou pela casa, fazendo o papel oleado estalar nas armações, pondo para dançar a chama do lampião. — Você a viu?

— Ainda não. Os criados de Taira, um bando de chineses asquerosos, não falam qualquer língua que eu possacompreender, por isso não consegui descobrir nada por intermédio deles. Mas o prédio maior na colônia pertence ao homem com quem ela vai casar.

— Ela vive lá?

— Não tenho certeza, mas... — Hiraga fez uma pausa, uma idéia aflorando em sua mente. — Se eu pudesse me tornar aceito, teria condições de ir a qualquer parte, descobriria tudo sobre suas defesas, seria capaz até de subir a bordo de seus navios...

— E numa certa noite — disse Ori no mesmo instante, antecipando-se, talvez pudéssemos capturar um dos navios ou afundá-lo.

— Isso mesmo.

Os dois se mostraram exultantes com a perspectiva, enquanto a vela se agita projetando sombras estranhas.

— Com o vento certo — murmurou Ori —, um vento sul, como esta noite com cinco ou seis shishi, uns poucos barris de óleo já colocados nos armazéns certos... mesmo que não seja necessário, podemos iniciar incêndios na Yoshiwara. O vento espalharia as chamas para a aldeia e, depois, para a colônia! Neh?

— E o navio?

— Na confusão, podemos remar até o maior. Seria fácil, neh?

— Fácil, não, mas que golpe!

Sonno-joi!

21

Quinta-feira, 16 de outubro:

Entre! Ah, bom dia, André. — O tom de Angelique era efusivo, e não combinava com sua ansiedade. — É muito pontual. Está tudo bem com você?

Ele acenou com a cabeça, fechou a porta da pequena sala no térreo, anexa ao quarto, que servia como o boudoir de Angelique, na legação francesa. Sentiu-se mais uma vez espantado por ela aparentar tanta calma e ser capaz de manter uma conversa descontraída. Polidamente, inclinou-se para beijar a mão de Angelique, depois sentou à sua frente. A sala era insípida, com cadeiras velhas, uma chaise longue, escrivaninha, paredes de reboco, com uns poucos óleos baratos de novos pintores franceses, Delacroix e Corot.

— O exército me ensinou. A pontualidade é quase a santidade.

Ela sorriu, amável.

— Não sabia que esteve no exército.

— Tive uma comissão na Argélia durante um ano, quando tinha vinte e dois anos, depois da universidade... nada de espetacular, apenas ajudar a esmagar uma das habituais rebeliões dos nativos. Quanto mais cedo exterminarmos todos os rebeldes, anexando por completo o norte da África, tornando-o território francês, melhor. — Ele afugentou as moscas, distraído, enquanto a estudava. — Você parece mais linda do que nunca. Seu estado lhe faz bem.

Os olhos de Angelique perderam a cor, tornaram-se duros. A noite anterior fora péssima, sua cama bastante desconfortável, no quarto desarrumado e andrajoso. No escuro, a ansiedade prevalecera sobre a confiança e se tornara cada vez mais nervosa por ter deixado de maneira tão precipitada a suíte confortável ao lado dos aposentos de Struan. A alvorada não melhorara seu humor; outra vez fora torturada pela idéia persistente: os homens causavam todos os seus problemas. A vingança será doce.

— Está se referindo ao meu iminente estado conjugal, não é?

— Claro — respondeu André, depois de uma breve pausa.

Angelique se perguntou, irritada, qual era o problema com ele, por que se mostrava tão grosseiro e distante, como ocorrera na noite anterior, quando tocou piano por um longo tempo, mas sem que a música tivesse o entusiasmo habitual.

André exibia olheiras e o rosto parecia mais encovado do que o habitual.

— Tem algum problema, meu caro amigo?

— Não, minha cara Angelique, absolutamente nenhum.

Mentiroso, pensou ela. Por que os homens mentem tanto, para as outras pessoas e para si mesmos?

— Teve êxito em sua missão?

— Sim e não.

Ele sabia que Angelique girava num espeto e, de repente, teve vontade de fazer com que ela se contorcesse, abanar as chamas para fazê-la gritar, pagar por Hana.

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