Você é louco, disse a si mesmo. A culpa não é de Angelique. Isso é verdade, mas foi por sua causa que ontem à noite visitei a casa das Três Carpas, falei com Raiko; enquanto conversávamos, em nossa mistura de japonês, inglês e pidgin senti de repente que aquela outra noite não passara de um pesadelo terrível e que a qualquer momento Hana apareceria, com um riso nos olhos, meu coração palpitaria, como sempre, deixaríamos Raiko, tomaríamos um banho juntos, comeríamos em particular e faríamos amor sem pressa. Quando compreendi a verdade, que Hana se fora para sempre, tive a sensação de que vermes fervilhavam em minhas entranhas e cérebro e quase vomitei.

— Raiko, preciso saber quem eram os três clientes.

— Sinto muito, Furansu-san. Já disse antes: a mama-san dela morreu, pessoas da casa se dispersaram, a Estalagem dos Quarenta e Sete Ronin foi destruída.

— Deve haver algum meio de descobrir...

— Não há nenhum. Sinto muito.

— Então me conte a verdade... a verdade de como ela morreu.

— Com sua faca na garganta. Sinto muito.

— Ela se matou? Haraquiri?

Raiko respondera com a mesma voz paciente, a mesma voz que usara para contar a mesma história, dar as mesmas respostas às mesmas perguntas, uma dezena de vezes antes:

— O haraquiri é o meio antigo, o meio honrado, o único meio de expiar um erro cometido. Hana traiu a você e a nós, a todos os clientes, a si mesma... era esse o seu karma nesta vida. Não há mais nada a dizer. Sinto muito. Deixe-a descansar. O quadragésimo dia depois de sua morte, seu dia de kami, quando uma pessoa renasce ou se torna um kami, já passou. Deixe seu kami, seu espírito descansar. Agora, que outra coisa posso fazer por você?

Angelique sentava empertigada, como fora ensinada desde a infância, angustiada, observando-o, uma das mãos no colo, a outra se abanando contra as moscas. Indagara duas vezes “o que significa sim e não?”, mas André não a ouviu, aparentemente em transe. Pouco antes de deixar Paris, seu tio ficara no mesmo estado e a tia comentara:

— Deixe-o em paz. Quem sabe que demônios habitam a mente de um homem quando perturbado?

— Qual é o problema que ele tem?

— Ah, chérie, toda a vida é um problema quando o que se ganha não dá para tudo o que se precisa. Os impostos nos sufocam, Paris é uma cloaca de arrogância e ausência de moral, a França desmorona outra vez, o franco compra cada vez menos, o preço do pão dobrou em um ano e meio. Deixe-o em paz. O pobre coitado faz o melhor que pode.

Angelique suspirou. É isso mesmo, um pobre coitado. Amanhã farei o melhor que puder. Falarei com Malcolm, que acertará o pagamento das dívidas. Um homem tão bom não pode continuar na prisão dos devedores. De quanto serão suas dívidas? Uns poucos luíses...

Ela viu André voltar a si e fitá-la.

— Sim e não, André? O que isso significa?

— Sim, elas têm um medicamento, mas não, você ainda não pode tomá-lo porque...

— Mas por que você...

Mon Dieu, seja paciente, e espere até eu terminar de contar o que a mama-san me disse. Não pode ter o medicamento agora porque não deve ser tomado antes do trigésimo dia, e de novo no trigésimo quinto, e também porque a beberagem... uma infusão de ervas... deve ser preparada na hora, a cada vez.

As palavras liquidaram a simplicidade do plano de Angelique; André já deveria ter lhe dado aquela altura a poção ou o pó que obtivera na noite anterior, ela tomaria de imediato e iria para a cama, alegando que se sentia com depressão. Voilá! Uma pequena dor de barriga e, em poucas horas, um dia no máximo, tudo ficaria perfeito.

Por um momento, Angelique sentiu que todo o seu mundo se distorcia, mas conseguiu aplicar um freio: Pare com isso! Está sozinha. É a heroína, apanhada pelas forças do mal. Deve ser forte, tem de lutar sozinha... mas pode vencê-las!

— Trinta dias?

A voz saiu sufocada.

— Isso mesmo, e repete no trigésimo quinto. Você precisa ser pontual e...

— O que acontece depois, André? Age rápido?

— Pelo amor de Deus, deixe-me acabar. Ela disse que costuma funcionar de lmediato. A segunda dose nem sempre é necessária.

— Não há nada que eu possa tomar imediatamente?

— Não. Absolutamente nada.

— Mas ela disse que a tal beberagem dá certo em todas as ocasiões?

— Disse, sim.

A resposta de Raiko a tal pergunta fora outra:

— Nove vezes em dez. Se o medicamento não funcionar, há outros meios.

— Refere-se a um médico?

— Isso mesmo. A poção geralmente funciona, mas é cara. Devo pagar ao fabricante antes que ele me dê. Precisa comprar as ervas...

André tornou a se concentrar agora em Angelique.

— A mama-san disse que era eficaz... mas cara.

— Eficaz? Todas as vezes? E não é perigosa?

— Todas as vezes, e não é perigosa. Mas é cara. Ela tem de pagar adiantado ao farmacêutico, para que ele compre as ervas.

— Por favor, pague para mim, e dentro de poucos dias o reembolsarei três vezes mais.

Os lábios de André contraíram-se numa linha fina.

— Já adiantei vinte luíses. Não sou rico.

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