Você é louco, disse a si mesmo. A culpa não é de Angelique. Isso é verdade, mas foi por sua causa que ontem à noite visitei a casa das Três Carpas, falei com Raiko; enquanto conversávamos, em nossa mistura de japonês, inglês e
— Raiko, preciso saber quem eram os três clientes.
— Sinto muito, Furansu-san. Já disse antes: a
— Deve haver algum meio de descobrir...
— Não há nenhum. Sinto muito.
— Então me conte a verdade... a verdade de como ela morreu.
— Com sua faca na garganta. Sinto muito.
— Ela se matou?
Raiko respondera com a mesma voz paciente, a mesma voz que usara para contar a mesma história, dar as mesmas respostas às mesmas perguntas, uma dezena de vezes antes:
— O
Angelique sentava empertigada, como fora ensinada desde a infância, angustiada, observando-o, uma das mãos no colo, a outra se abanando contra as moscas. Indagara duas vezes “o que significa sim e não?”, mas André não a ouviu, aparentemente em transe. Pouco antes de deixar Paris, seu tio ficara no mesmo estado e a tia comentara:
— Deixe-o em paz. Quem sabe que demônios habitam a mente de um homem quando perturbado?
— Qual é o problema que ele tem?
— Ah,
Angelique suspirou. É isso mesmo, um pobre coitado. Amanhã farei o melhor que puder. Falarei com Malcolm, que acertará o pagamento das dívidas. Um homem tão bom não pode continuar na prisão dos devedores. De quanto serão suas dívidas? Uns poucos luíses...
Ela viu André voltar a si e fitá-la.
— Sim e não, André? O que isso significa?
— Sim, elas têm um medicamento, mas não, você ainda não pode tomá-lo porque...
— Mas por que você...
—
As palavras liquidaram a simplicidade do plano de Angelique; André já deveria ter lhe dado aquela altura a poção ou o pó que obtivera na noite anterior, ela tomaria de imediato e iria para a cama, alegando que se sentia com depressão.
Por um momento, Angelique sentiu que todo o seu mundo se distorcia, mas conseguiu aplicar um freio: Pare com isso! Está sozinha. É a heroína, apanhada pelas forças do mal. Deve ser forte, tem de lutar sozinha... mas pode vencê-las!
— Trinta dias?
A voz saiu sufocada.
— Isso mesmo, e repete no trigésimo quinto. Você precisa ser pontual e...
— O que acontece depois, André? Age rápido?
— Pelo amor de Deus, deixe-me acabar. Ela disse que costuma funcionar de lmediato. A segunda dose nem sempre é necessária.
— Não há nada que eu possa tomar imediatamente?
— Não. Absolutamente nada.
— Mas ela disse que a tal beberagem dá certo em todas as ocasiões?
— Disse, sim.
A resposta de Raiko a tal pergunta fora outra:
— Nove vezes em dez. Se o medicamento não funcionar, há outros meios.
— Refere-se a um médico?
— Isso mesmo. A poção geralmente funciona, mas é cara. Devo pagar ao fabricante antes que ele me dê. Precisa comprar as ervas...
André tornou a se concentrar agora em Angelique.
— A
— Eficaz? Todas as vezes? E não é perigosa?
— Todas as vezes, e não é perigosa. Mas é cara. Ela tem de pagar adiantado ao farmacêutico, para que ele compre as ervas.
— Por favor, pague para mim, e dentro de poucos dias o reembolsarei três vezes mais.
Os lábios de André contraíram-se numa linha fina.
— Já adiantei vinte luíses. Não sou rico.