Yoshi contou a ela tudo o que podia se lembrar, inclusive o que Misamoto dissera sobre a parte das Américas conhecida como Califórnia... e às vezes chamada de terra da montanha de ouro. Os olhos de Hosaki se contraíram, mas ele não percebeu.

Quando Yoshi acabou, ela ainda tinha mil perguntas, mas controlou-se deixando-as para mais tarde, não querendo cansá-lo.

— Ajuda-me a ver tudo com clareza, Yoshi-chan, é um observador extraordinário. O que decidiu?

— Nada, por enquanto... Eu gostaria que meu pai estivesse vivo, sinto falta de seus conselhos... e também dos conselhos da mãe.

— Posso compreender.

Hosaki sentia-se contente por ambos estarem mortos, o pai dois anos antes os problemas da velhice agravados pelo confinamento a que fora submetido por Li — ele tinha cinqüenta e cinco anos —, e a mãe na epidemia de varíola do ano passado. Ambos haviam tornado angustiante a vida de Hosaki, ao mesmo tempo em que mantinham Yoshi sob seu encantamento. Na opinião dela, o pai não cumpria seu dever com a família, tomando decisões erradas com mais frequência do que as certas, enquanto a mãe sempre fora a sogra mais destemperada e difícil de agradar que já conhecera, pior com ela do que com as esposas dos três irmãos de Yoshi.

A única coisa inteligente que eles fizeram em toda a sua vida, refletiu Hosaki, foi concordarem com a proposta de casamento com Yoshi Toranaga apresentada por meu pai. Por isso, tenho de lhes agradecer. Agora, reino sobre o Dente do Dragão e nossas terras, que passarão para meus filhos, fortes, inviolados e dignos do lorde xógum Toranaga.

— É uma pena que eles tenham partido — murmurou Hosaki. — Vou ao santuário deles todos os dias e suplico para ser digna da confiança que me dispensavam.

Yoshi suspirou. Desde a morte da mãe que sentia um vazio, mais ainda do que depois da morte do pai, a quem admirava, mas temia. Sempre que tinha um problema, ou estava com medo, sabia que podia procurá-la, e seria tranquilizado, orientado, receberia uma nova força. Ele murmurou, muito triste:

— Karma que a mãe tenha morrido tão jovem.

— Tem razão, Sire.

Hosaki compreendia a tristeza do marido, pois a mesma coisa ocorria com todos os filhos, cujo primeiro dever é obedecer e respeitar a mãe acima de todas as pessoas... e pela vida inteira. Nunca poderei preencher esse vazio, assim como as esposas dos meus filhos jamais preencherão o que vou deixar.

— Qual é o seu conselho, Hosaki?

— Tenho pensamentos demais para tantos problemas — respondeu preocupada, a mente absorvendo o mosaico de perigos que vinham de todos os lados.— Sinto-me inútil neste momento. Deixe-me pensar com cuidado, esta noite e amanhã... talvez eu possa sugerir alguma coisa que lhe dará uma indicação do que deve fazer e depois, com sua permissão, voltarei para casa no dia seguinte, já que pelo menos uma coisa é certa: precisamos reforçar nossas defesas. Deve me dizer o que fazer. Enquanto isso, permita-me algumas observações imediatas, para sua consideração: aumentar a vigilância de seus guardas e mobilizar discretamente todas as suas forças.

— Eu já havia tomado essa decisão.

— Esse gai-jin que o abordou depois da reunião, um francês, pelo que disse... sugiro que aceite seu oferecimento, para ver com seus próprios olhos o interior de um navio de guerra. É muito importante que você mesmo veja... talvez até possa fingir que se torna amigo deles, para depois jogá-los contra os ingleses, neh?

— Também já havia decidido isso.

Ela sorriu para si mesma, baixou a voz ainda mais:

— Por mais difícil que seja, Anjo deve ser removido, em caráter permanente... e quanto mais cedo, melhor. Como é provável agora, você não pode evitar que o xógum e a princesa partam para Quioto... Concordo que ela é, corretamente, do seu ponto de vista, a espiã da corte, uma títere e inimiga. Assim, você deve partir em segredo, logo depois deles, e correr para Quioto, pela Tokaidô, que é mais curta, e chegar lá antes... Sorri, Sire?

— Só porque você me agrada. E quando chegar a Quioto?

— Deve se tornar o confidente do imperador... temos amigos na corte que o ajudarão. Depois, uma possibilidade entre dezenas: fazer um acordo secreto com Ogama de Choshu, deixá-lo com o controle dos portões... — Hosaki hesitou, enquanto o marido ficava vermelho. — ...mas apenas enquanto ele for seu aliado declarado contra Satsuma e Tosa.

— Ogama jamais acreditaria que eu cumpriria esse acordo... e pode ter certeza que eu não o faria, pois precisamos recuperar os portões a qualquer custo.

— Concordo. Mas a parte final do pacto pode ser outra, se ele concordar numa aliança para um ataque de surpresa a lorde Sanjiro, de Satsuma, no momento em que você escolher. Depois que Sanjiro for derrotado, Ogama lhe devolve os portões, e fica em troca com Satsuma.

Yoshi franziu o rosto ainda mais.

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