— É muito difícil derrotar Sanjiro por terra, quando ele se entrincheira por trás de suas montanhas... nem mesmo o xógum Toranaga atacou Satsuma depois de Sekigahara, apenas aceitou a submissão pública, os juramentos de fidelidade e controlou-os com gentilezas. E não podemos desfechar um ataque por mar.

Ele pensou por um momento.

— É um sonho, não uma possibilidade concreta. Muito difícil, mas... quem sabe? A próxima sugestão.

— Remover Nobusada em seu caminho para Quioto... é uma chance única.

— Nunca! — Yoshi sentia-se chocado por Hosaki ter pensado da mesma forma que ele ou, então, o que seria ainda pior, ter percebido seu desejo mais secreto. — Seria trair o legado, minha herança, tudo pelo que o lorde xógum Toranaga se empenhou. Aceitei-o como meu suserano, como não podia deixar de fazer.

— Tem toda razão — disse ela no mesmo instante, apaziguando-o, já fazendo uma reverência, preparada e esperando tal reação, mas precisando articulá-la para ele. — Foi baka de minha parte. Concordo completamente. Sinto mui...

— Ainda bem. Nunca mais pense ou diga isso.

— Claro. Por favor, perdoe-me.

Hosaki manteve a cabeça inclinada pelo tempo apropriado, murmurando desculpas, depois inclinou-se para a frente, tornou a encher a xícara de Yoshi recostou-se, olhos abaixados, esperando que ele lhe pedisse para continuar.

Nobusada deveria ter sido eliminado por seu pai, Yoshi, pensou ela, calmamente... e me espanta que você nunca tenha compreendido isso. Seu pai e mãe — que deveriam lhe dar os conselhos corretos — falharam em seu dever quando aquele menino estúpido foi proposto para xógum, em seu detrimento, pelo traidor Li. Foi Li quem nos impôs a prisão domiciliar, destruiu nossa paz por anos, quase causou a morte de nosso filho mais velho, por causa dos meses em que ficamos tão confinados que todos passamos fome. Sabíamos que ele faria isso muito antes que acontecesse. Afastar Nobusada sempre foi o caminho óbvio, por mais herética e desagradável que seja tal ação, o único meio de proteger nosso futuro. Se você não quer considerar isso, Yoshi, eu mesma encontrarei uma maneira...

— Foi um mau pensamento, Hosaki. Terrível!

— Concordo, Sire. Por favor, aceite minhas humildes desculpas. — Ela tornou a encostar a cabeça no tatame. — Foi uma estupidez. Não sei de onde vem tanta estupidez. Tem toda razão, é claro. Talvez seja porque me sinta angustiada com os perigos que lhe cercam. Por favor, Sire, permite que eu me retire?

— Daqui apouco. Agora...

Um pouco abrandado, Yoshi gesticulou para que ela servisse mais chá, ainda atordoado pela esposa ter ousado expressar tamanho sacrilégio, até mesmo para ele.

— Posso mencionar um outro pensamento, Sire, antes de ir embora?

— Pode, desde que não seja tão estúpido quanto o último.

Ela quase riu da farpa petulante de menino, que não chegava a penetrar nem mesmo em suas defesas externas.

— Disse, Sire, que o problema mais importante e imediato a resolver com os gai-jin é como afundar suas esquadras ou manter seus canhões longe de nossas praias, neh?

— Isso mesmo.

— Pode-se montar canhões em barcaças?

— Como? — Ele franziu o rosto, desviando o pensamento de Nobusada devido a esse novo rumo na conversa. — Acho que sim. Por quê?

— Podemos descobrir com os holandeses. Eles nos ajudariam. Talvez pudéssemos construir uma frota defensiva, mesmo difícil de manobrar, ancorando barcaças no mar, em acessos estratégicos às nossas áreas mais importantes, como nos estreitos de Shimonoseki, e fortificando as entradas de todas as nossas enseadas — Por sorte, são bem poucas, neh?

— Talvez seja possível — admitiu Yoshi, a idéia nunca tendo lhe ocorrido. — Mas não disponho de dinheiro ou ouro em quantidade suficiente para comprar todos os canhões necessários às baterias em terra, muito menos para construir uma frota assim. Nem tempo suficiente, conhecimento ou riqueza para abrir nossas próprias fábricas... nem os homens para operá-las.

— É verdade, Sire. Está sendo sábio. — Uma pausa, e Hosaki, com uma cara triste, respirou fundo. — Todos os daimios estão empobrecidos, cheios de dívidas... e nós tanto quanto os outros.

— Hem? — gritou ele. — A colheita?

— Sinto muito trazer más notícias. Menor que a do ano passado.

— Quanto menor?

— Um terço.

— É uma péssima notícia, logo no momento em que eu precisava de uma receita extra! — Yoshi cerrou o punho. — Os camponeses são todos baka!

— Sinto muito, mas a culpa não é deles, Yoshi-chan. As chuvas vieram muito tarde ou muito cedo, o sol também. Os deuses não sorriram para nós este ano.

— Não há deuses, Hosaki-chan, mas há karma. É karma termos uma péssima colheita... mas mesmo assim você terá de pagar os tributos.

Os olhos de Hosaki brilhavam com lágrimas.

— Haverá fome no Kwanto antes da próxima colheita... e se isso acontece conosco, que temos a terra mais fértil para o plantio de arroz em todo o Nipão, o que será dos outros?

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