— Como decidimos. Mais uma vez, Jamie, obrigado. Mantenha-me informado.
— Malcolm — disse Angelique —, já que Jamie está aqui... pediu-me para lembrá-lo, quando estivéssemos todos juntos, sobre a minha... hum... pequena mesada.
— Claro, claro. Jamie... — Seu ânimo era expansivo, enquanto pegava a mão de Angelique, o prazer evidente da jovem relegando a noite ao esquecimento... para sempre, pensou ele, feliz. Foi uma noite que nunca ocorreu! — Ponha os vales da minha noiva na minha conta pessoal.
Ele experimentou uma pontada de felicidade pela palavra e acrescentou:
— Angel, basta assinar os vales, tudo o que quiser. Jamie cuidará do resto.
— Obrigada,
Struan riu, Jamie sorriu.
— Não precisa de dinheiro aqui. Não há necessidade... nenhum de nós anda com dinheiro.
— Mas, Malcolm, eu que...
— Angelique — declarou ele, a voz mais firme —, pagamos tudo em vales, no clube ou em qualquer loja da colônia. É o que todo mundo faz, até mesmo em Hong Kong. Não pode ter esquecido. Impede os comerciantes de trapacearem e você fica com um registro permanente.
— Mas sempre andei com algum dinheiro,
— Pagar suas próprias contas? Mas que idéia horrível! É uma coisa sem precedentes na boa sociedade. Não precisa se preocupar. — Ele sorriu. — Isso cabe aos homens e os vales são uma solução perfeita.
— Talvez os franceses sejam diferentes. Sempre andamos com dinheiro e...
— Nós também, na Inglaterra e em outros lugares, mas na Ásia todos assinam vales. Qualquer coisa que quiser comprar, basta assinar... ainda melhor, deve ter seu sinete pessoal. Escolheremos o perfeito nome chinês para você.
De um modo geral, era um pedaço retangular de marfim ou osso, tendo esculpidos na base caracteres chineses, que soavam como o nome do proprietário. Quando comprimidos contra uma almofada de tinta, e depois no papel, produziam uma impressão singular, quase impossível de falsificar.
— Jamie providenciará tudo para você.
— Obrigada, Malcolm, mas posso ter minha própria conta,
— Tenho certeza que sim, mas não precisa preocupar sua linda cabecinha com essas coisas. Depois que casarmos, providenciarei tudo, mas aqui é desnecessário.
Angelique mal escutava o que dizia, enquanto distraía Struan com os mexericos da legação francesa, o que lera nos jornais, o que sua amiga de Paris escrevera sobre uma magnífica residência — lá chamada hotel — nos Champs Élysées, pertencente a uma condessa, mas que em breve estaria disponível, e era muito barata. Plantava as sementes para o futuro glorioso dos dois, fazendo-o rir, esperando que ele se sentisse sonolento, quando então partiria para o almoço no clube com os oficiais franceses, que lhe fariam companhia mais tarde num passeio a cavalo, junto com oficiais da marinha inglesa, depois uma siesta e os preparativos para o sarau de Sir William... não havia motivo para deixar de comparecer, mas antes voltaria para desejar boa noite a seu futuro marido.
Tudo era maravilhoso e terrível ao mesmo tempo, a maior parte de sua mente se concentrava no novo dilema: como conseguir dinheiro. O que vou fazer? Preciso de dinheiro para pagar o medicamento, aquele porco do André Poncin não o adiantará para mim, sei que não. Que se dane ele, e que se dane meu pai também por roubar meu dinheiro! E que se dane AQUELE da
Pare com isso, e trate de pensar. Lembre-se de que está sozinha e é a única que pode resolver seus problemas!
Meu único objeto de valor é o anel de noivado e não posso vendê-lo, de jeito nenhum. Oh, Deus, tudo ia tão bem, fiquei noiva oficialmente, Malcolm está melhorando, André vem me ajudando, mas o medicamento é muito caro e não tenho dinheiro, dinheiro de verdade, oh, Deus, o que vou fazer?
Lágrimas afloraram a seus olhos.
— Por Deus, Angelique, o que foi?
— Apenas... apenas me sinto tão infeliz... — soluçou ela, baixando a cabeça para as cobertas da cama. — ...infeliz porque a
O cúter de dez remos de Sir William deslizava depressa pelas ondas, a caminho da nave capitânia, ancorada ao largo de Iocoama. Ele se encontrava sozinho na cabine, de pé, usando sobrecasaca e cartola. Mar sereno, a luz se desvanecendo a oeste, as nuvens já cinzentas, mas sem qualquer ameaça aparente de tempestade. Quando o cúter encostou no navio, todos os remos subiram para uma posição vertical. Sir William subiu apressado para o convés principal.
— Boa tarde, senhor — disse o tenente Marlowe, batendo continência. — Por aqui, por favor.