— Melhor do que bem. A moça disse alguma coisa?

— Apenas que ela... ahn... trabalhou a noite inteira... para tentar satisfazê-lo.

Uma batida na porta e Angelique entrou, transbordando de saúde, muito elegante num vestido cor de alfazema, novo, sombrinha, chapéu com plumas, luvas e xale.

— Olá, meu amor, olá, Jamie. Como se sente hoje? Oh, Malcolm, fico tão feliz em vê-lo! — Ela se inclinou para beijar Struan, com extrema ternura. — Oh, chéri, como sinto sua falta!

No momento em que a porta se abrira, os corações dos dois homens dispararam. O nervosismo de McFay aumentara e, no mesmo instante, seus olhos examinaram a cama e o resto do quarto, à procura de sinais denunciadores. Mas tudo se encontrava em ordem, impecável, os lençóis e fronhas trocados todos os dias — devido mais à meticulosidade de Struan com a higiene, em um nível absurdo, pensou ele —, assim como a camisa. Era ridículo, uma ou duas vezes por mês seriam mais do que suficientes. Por outro lado, ele sabia que o hábito fora instituído por Dirk Struan, e tudo o que o tai-pan determinava era lei para Tess Struan e, por conseguinte, para sua família. Struan acabara de fazer a barba, usava um camisolão limpo, e as janelas estavam abertas para a brisa marinha, que dissiparia quaisquer vestígios de perfume. McFay passou a respirar com mais facilidade e foi nesse instante que Angelique anunciou:

— Falei com o Dr. Hoag.

Os dois quase tiveram outro espasmo.

— Meu pobre querido — continuou ela, quase sem pausa —, ele me contou que teve uma péssima noite e que não poderá ir à soirée de Sir William hoje. Por isso, achei que devia ficar aqui com você, fazendo-lhe companhia, até a hora do almoço.

Outra vez o sorriso deslumbrante, que seduziu os dois, e Angelique se instalou numa cadeira de encosto alto. Struan sentia-se tonto de amor por ela, ao mesmo tempo em que experimentava uma náusea de culpa. Eu devia estar louco ao querer uma prostituta para substituir o amor da minha vida, pensou ele, deleitando-se com o calor que Angelique irradiava, querendo falar sobre Shizuka e suplicar seu perdão.

A noite começara bastante bem, com Shizuka despindo-se, sorrindo, comprimindo-se contra ele, acariciando, estimulando. Struan também a tocara, acariciando ao mesmo tempo orgulhoso e ansioso. Fora um tanto difícil e doloroso assumir a posição normal, efetuar os movimentos normais, para começar, mas não impossível... até que de repente o rosto e a presença de Angelique dominaram-no por completo, uma pressão involuntária e indesejada. Sua virilidade murchara. E por mais que Shizuka tentasse, e ele também, não voltara mais.

Descansaram um pouco, tentaram de novo, a ânsia horrível agora para ele agravada por uma raiva frenética e impotente, pela necessidade de provar sua capacidade. Mais carícias e tentativas... ela era experiente com as mãos, lábios e corpo, mas nada conseguira que provocasse uma reação de desejo e necessidade muito menos de amor e seu indefinível mistério. Nem qualquer coisa que Shizuka fizesse seria capaz de dissipar o espectro. Ou prevalecer sobre a dor.

Ao final, ela acabara desistindo, o corpo jovem brilhando de suor, ofegante de tanto esforço.

— Gomen nasai, tai-pan — sussurrara Shizuka, várias vezes, desculpando-se.

Ao mesmo tempo, ela ocultara sua fúria, quase em lágrimas pela impotência de Struan, pois nunca falhara antes, e esperara que ele chamasse os criados a qualquer momento, para expulsá-la pelo fracasso, por não conseguir despertá-lo, como uma pessoa civilizada deveria fazer. E mais do que qualquer outra coisa, ela sentira-se assediada pela ansiedade, sem saber como explicaria sua inadequação à mama-san. Que Buda fosse testemunha: o homem é que fracassou, não eu!

— Gomen nasai, gomen nasai — continuara a balbuciar.

— É o acidente — murmurara Struan.

Ele desprezava a si mesmo, achando que a dor era grotesca. Falara sobre a Tokaidô, sobre seus ferimentos, embora soubesse que a mulher não entenderia suas palavras, agoniado de frustração. Passada a tempestade, suas lágrimas secando, Struan fê-la deitar-se ao seu lado, impedira-a de tentar mais uma vez e a fizera compreender que receberia o pagamento em dobro se mantivesse tudo em segredo.

— Segredo, wakarimasu ka? — suplicara ele.

— Hai, tai-pan, wakarimasu — concordara Shizuka, feliz, ao pegar o medicamento que ele pedira, e o embalara até que dormisse.

— Malcolm... — murmurou Angelique.

— O que é? — perguntou Struan no mesmo instante, concentrando-se, o coração batendo forte, lembrando a si mesmo que consumira o resto da poção para dormir de Hoag e que devia pedir a Ah Tok para substituir a mistura... por apenas um dia, ou pouco mais. — Também me sinto satisfeito em vê-la.

— Eu também. Gosta do meu vestido?

— É maravilhoso... e você também.

— Tenho de me retirar agora, tai-pan — interveio McFay, vendo como Struam ficara feliz, satisfeito por ele, embora ainda transpirasse. — Os representantes Choshu estão lá embaixo... posso continuar as negociações com eles?

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