— Aquele patife é capaz de concordar com qualquer coisa para tornar sua vida mais simples, só que não vai adiantar coisa alguma. — Norbert assumiu uma expressão sombria. — William não é todo o nosso problema. Temos o almirante. Precisamos de um novo almirante. É mais importante do que afastar William. É ele que não quer bombardear os miseráveis, como deveria fazer. É ele, não William... qualquer tolo pode perceber isso.

Norbert terminou o conhaque, tornou a encher o copo e acrescentou, fingindo não notar como sua intervenção abalara Struan e irritara McFay:

— Mais uma vez, meus cumprimentos pelo creme, mas o conhaque não está à altura. Posso lhe mandar um barril do nosso Napoleon?

Com algum esforço, Struan manteve o controle.

— Por que não? Talvez seja mesmo melhor. Mas a sua solução para o nosso problema também é melhor?

— Minha solução é bem conhecida — declarou Norbert, o tom ríspido. — Exigir que eles entreguem os assassinos de Canterbury e paguem a indenização. Se não houver qualquer ação, três dias depois arrasamos Iedo. Quantas vezes temos de dizer isso? Mas os idiotas que temos aqui não querem aplicar as represálias normais, a única ação que os nativos compreendem... ou qualquer outro jugo diga-se de passagem. E até que a marinha tome a iniciativa, todos nós corremos perigo.

O silêncio foi se tornando opressivo. McFay evitou que os pensamentos transparecessem em seu rosto, preocupado com a possibilidade de Struan ter uma confrontação com aquele homem muito mais velho e experiente. Também sentia-se contrariado por não ter sido informado do verdadeiro motivo para a reunião, carecendo assim da oportunidade de dar alguns conselhos antes.

— Seja como for, Norbert, concorda que você, Dmitri e o tai-pan, representando a maioria, devem procurar Wee Willie, assim que ele voltar?

— Claro que devemos procurá-lo, mas não vai adiantar nada. — Norbert tomou mais um gole de conhaque, sentindo-se melhor pela discussão. — Sei o que diriam o Sr. Brock, um autêntico tai-pan, e Sir Morgan. Tyler Brock diria, com muitas palavras rudes dos anglo-saxões, que o almirante é que estraga tudo, que William não passa de um miserável arrogante que não vai mudar, e que falará pessoalmente com Stanshope, que também é um tolo, e que pelo primeiro navio de correspondência escreverá para os nossos amigos no Parlamento, para que protestem com veemência.

Enquanto falava, ele acendeu um charuto e depois acrescentou, através da fumaça, a voz escarninha:

— E diria também que, embora nossos amigos sejam mais poderosos do que os seus, e farão mais do que os seus, a solução vinda de lá vai demorar pelo menos cinco ou seis meses, e por isso você deveria tirar o rabo da cadeira, já que é o responsável, e resolver logo o problema, ou virá ao Japão para quebrar algumas cabeças.

Struan sentiu a onda de raiva, assim como o fluxo de medo, coisas que sempre ocorriam à menção do nome de Tyler Brock, ou quando lia a seu respeito nos jornais, ou o via nas ruas de Hong Kong, ou nas corridas de cavalo.

— Então qual é a solução?

— Não tenho nenhuma. Se a tivesse, claro que já a teria posto em prática. — Norbert soltou um arroto. — Como o seu japonês secreto e a concessão de mineração, que nunca vai obter.

Struan e McFay ficaram aturdidos.

Duas semanas antes, Vargas sussurrara excitado que fora procurado por um dos seus fornecedores de seda, agindo como intermediário de um certo lorde Ota, que queria se encontrar com o tai-pan em segredo, “para negociar a concessão exclusiva à Struan da mineração de ouro em seus domínios, que incluíam a maior parte do Kwanto, a área abrangendo quase todas as planícies e montanhas em torno de Iedo, em troca do comércio de armamentos”.

— Sensacional! — exclamara Struan. — Se for de boa fé, pode ser uma grande abertura para nós. Não concorda, Jamie?

— Se for uma proposta genuína, claro que sim.

— Aqui está a credencial deles.

Vargas mostrara a folha de papel-de-arroz da melhor qualidade, com colunas de caracteres em estilo chinês, lacrada com requinte.

— Este lacre é de lorde Ota, e este aqui de um dos roju, lorde Yoshi. Há duas condições: que a reunião seja realizada em Kanagawa, e que tudo seja mantido em segredo do Bakufu.

— Por quê? E por que Kanagawa? Por que não aqui?

— Eles apenas disseram que é o lugar em que deve ser feita a reunião e que chegariam à noite na legação em Kanagawa. O encontro pode ocorrer ali.

— Pode ser uma armadilha, tai-pan — alertara Jamie. — Não se esqueça de que Lun foi assassinado na legação e os assassinos...

O excitamento de Malcolm murchara com a lembrança. Mas tratara de afastar essa possibilidade.

— Há soldados ali para nos protegerem.

— Eles garantiram que seus representantes estariam desarmados, senhor — ressaltara Vargas —, e insistiram na necessidade de sigilo.

— É arriscado demais para você, tai-pan — dissera Jamie. — Irei com Vargas, que pode servir como intérprete.

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