— Fora do comum, sem dúvida, pois eles prometeram a presença do xógum — disse Seratard, em francês. — Mas podemos, apenas para esta reunião, concordar com o pedido... o que acham, meus amigos?

Ele teve o cuidado de ocultar sua irritação e manteve a voz suave e gentil, como André Poncin, a seu lado, sugerira num sussurro cauteloso, ao entrarem na sala, acrescentando:

— Tome cuidado, Henri. O porta-voz dos roju é o mesmo funcionário do Bakufu que eu... a que fizemos a oferta depois da outra reunião, de visitar um navio de guerra, lembra? Mon Dieu, achei que ele era importante, mas nunca um dos anciãos! Se pudéssemos atraí-lo para o lado da França, seria um golpe maravilhoso...

O conde Zergeyev declarou:

— Concordar criará um deplorável precedente.

— Será apenas por esta reunião. Certo?

— Não importa, é como vento no rabo de uma vaca — interveio o suíço, Erlicher. — Vamos continuar.

Eles continuaram a discutir. Tyrer escutava, mas mantinha sua atenção nos anciãos, embora não de uma forma ostensiva, fascinado por eles, querendo aproveitar aquela oportunidade excepcional de aprender o máximo sobre o conselho, no mínimo de tempo. O pai lhe incutira desde cedo:

— Em qualquer reunião, sempre observe as mãos e os pés dos oponentes, pois são reveladores, assim como os olhos e os rostos, só que estes em geral podem ser controlados com facilidade. Concentre-se! Observe, mas com cautela, ou as indicações para lhe dizer o que a pessoa realmente pensa serão encobertas. Lembre-se, meu filho, de que todos exageram, todos mentem, em graus diversos.

As mãos e os pés do ancião moreno, de olhos irrequietos, se mexiam a todo instante, pequenos movimentos nervosos, enquanto os do ancião jovem se mantinham imóveis. De vez em quando, como na outra reunião, ele via o homem que apelidara de “Olhos Matreiros” sussurrar para o jovem ancião, o porta-voz... e só para ele. Por quê? — perguntou Tyrer a si mesmo. — E por que Olhos Matreiros nunca participa das conversas entre eles, aparentemente descartado pelos outros, mantendo os olhos fixados sempre nos ministros, nunca nos intérpretes? Abruptamente, Sir William apontou para a cadeira vazia.

— Se o xógum não era esperado nesta reunião, e há cinco anciãos no conselho, por que há uma cadeira vaga?

Outra vez as traduções, para um lado e outro, antes da resposta:

— Ele diz que o presidente do conselho, lorde Anjo, acaba de cair doente e não pôde comparecer, mas que isso não importa, porque eles têm autoridade para decidir. Por favor, continuem.

Von Heimrich disse, num francês impecável, como uma afronta a Seratard:

— Isso não invalida esta reunião, já que eles sempre ressaltaram a natureza “unânime” deste conselho? Cinco homens. Pode ser outra artimanha a ser usada no futuro, a fim de repudiar toda a reunião.

E começou outra discussão. Apenas Sir William permaneceu em silêncio. Conseguia evitar que a fúria e ansiedade transparecessem em seu rosto. É evidente que haviam sido enganados mais uma vez. O que fazer? E foi então que ele se ouviu dizer, em voz firme:

— Muito bem, aceitaremos a autoridade deles como um ato de boa fé de seu xógum, mas apenas para esta reunião. Comunicaremos a nossos governos que o acordo anterior não foi cumprido e seguiremos para Quioto, o mais depressa possível, afim de apresentarmos nossas credenciais ao xógum... e ao imperador Komei... com uma escolta mais do que apropriada.

Enquanto Johann começava a traduzir para o holandês, o conde Zergeyev murmurou:

— Bravo... é a única maneira de lidar com os matyeryebitzl

Von Heimrich e van de Tromp, o holandês, concordaram no mesmo instante, com as objeções de Seratard, Adamson, o americano, e Erlicher.

O intérprete japonês deixou escapar uma exclamação de espanto e disse em voz alta que tinha certeza que não entendera direito. Johann proclamou que não havia qualquer mal-entendido. Durante essa discussão, Sir William fechou os ouvidos a eles, observando com total atenção os rostos dos roju, enquanto ouviam seu intérprete. Em graus diversos, todos se mostraram apreensivos. Ótimo, pensou ele.

— Com o palavrório habitual, Sir William, mas com uma carga grande de desculpas polidas desta vez, ele diz que não será possível ver o xógum em Quioto, o tempo é inclemente nesta época do ano, mas nos asseguram que assim que ele voltar, etc.

Sir William sorriu, sem qualquer humor.

— Diga a eles o seguinte: Com o tempo inclemente ou não, visitaremos o imperador em futuro próximo. Ressalte isso, Johann. Só nesta base continuaremos a reunião.

Os roju receberam o aviso num silêncio impassível.

Depois, Sir William primeiro, os outros em seguida, levantaram-se, fizeram uma reverência, enunciaram seu posto e o país que representavam e apresentaram suas credenciais. Foram aceitas com dignidade. A cada vez, os roju retribuíam a reverência, respeitosos.

Перейти на страницу:

Все книги серии Asian Saga (pt)

Похожие книги