— Se não pudermos desembarcar munição — explicara Sir William, insinuante —, então teremos de disparar as salvas do mar desse jeito... pedimos que usasse tiros de pólvora seca, mas imagino que ele entendeu mal a mensagem problemas de linguagem... e sentiremos muito se atingirem sua cidade, mas a culpa será de vocês. Terei de explicar isso em detalhes a seu imperador Komei canhoneio e os rifles, pois constituem uma honra real, um símbolo de respeito para homenagear seu xógum. Explicarei tudo isso quando nos encontrarmos com seu imperador Komei, na visita a Quioto, que já adiei três vezes, a pedido de vocês e que marcarei quando a minha esquadra mais poderosa voltar do ataque a uma boa parte da costa da China, habitada por piratas miseráveis, que tiveram a ousadia de atacar um pequeno navio britânico!

A oposição do Bakufu ruíra por completo. Assim, todos os fuzis estavam carregados, e todos os soldados avisados de que poderia ocorrer uma luta, mas que em nenhuma circunstância, e sob pena da mais rigorosa punição, deveria haver provocações a algum japonês.

— E o que fará a fragata H.M.S. Pearl, Sir William? — indagara o general, na última reunião.

— Pode nos levar a Iedo, e depois voltar para cá, caso nossos anfitriões resolvam desfechar um ataque de surpresa contra a colônia durante nossa ausência... a Pearl daria cobertura a uma evacuação.

— Pelo bom Deus, senhor, se acha que há essa possibilidade, por que assume o risco? — dissera o general, preocupado. — Os outros ministros não seriam uma grande perda, mas haveria um incidente internacional se alguma coisa lhe acontecesse. Afinal, senhor, representa o império. Não deve arriscar sua pessoa.

— É parte do meu trabalho, meu caro general.

Sir William sorriu para si mesmo, ao recordar como mantivera a voz calma, falando como se fosse um gracejo. O general acenara com a cabeça, solene, acreditando que era verdade. O pobre coitado é um pateta, mas isso faz parte de suas funções, sem dúvida, pensou Sir William, jovial, para depois descartar tudo e se concentrar apenas no castelo e na iminente reunião, a culminação de meses de negociações, e que daria legalidade ao tratado e à abertura dos portos do tratado. E foram aqueles poucos disparos franceses que produziram o milagre, pensou ele, sombrio. Maldito Ketterer, mas graças a Deus que suas operações na China correram bem, segundo os últimos despachos, e ele voltará em breve. Se pôde bombardear a costa da China, por que não aqui... ora, ele que se dane!

E que se dane também este castelo.

De longe, não parecia muito imponente; quanto mais se aproximavam, porém, mais se tornava imenso, com oito círculos de estruturas que pareciam alojamentos como defesas externas. Depois, o castelo propriamente dito, elegante, com lindas proporções, pensou Sir William, o fosso com quase duzentos metros de extensão, as muralhas exteriores muito altas, com uns dez metros de espessura, feitas com enormes blocos de granito. Nem mesmo nossos canhões de sessenta libras poderiam destruí-las, concluiu ele, impressionado. E, lá dentro, só Deus sabe quantas fortificações cercam a torre central. E o acesso só é possível através do portão ou por cima das muralhas, num ataque frontal, que eu não gostaria de ordenar. Deixar o castelo à míngua? Só Deus sabe quantos depósitos de alimentos existem aqui... ou quantos soldados pode alojar. Milhares.

Além dos portões, o caminho se estreitava, numa área dominada por arqueiros, abrigados em fendas defensivas, ou em parapeitos dez metros acima do solo. O caminho levava a outro pátio confinado, com outros portões fortificados, outro pátio, mais portões, no que devia ser um labirinto de passagens, terminando na torre central, e sempre deixando uma força hostil à mercê dos defensores por cima.

— Desmontamos aqui, Sir William — anunciou Pallidar, parando o cavalo e batendo continência.

Ele era o comandante da escolta. Estava acompanhado por oficiais samurais, a pé, que apontaram para uma enorme porta, sendo aberta naquele momento.

— Está certo. Sabe o que tem de fazer?

— Claro. Mas não tenho a menor esperança de lhe dar cobertura, ou até sair daqui lutando, mesmo enfrentando arcos e flechas.

— Não planejo lutar contra ninguém, capitão.— Sir William sorriu. Virou-se na sela, fez sinal para todos desmontarem. — Um castelo e tanto, hem?

— Melhor do que qualquer outro sobre o qual já li ou ouvi falar — comentou Pallidar, apreensivo. — Superior a tudo que os cruzados enfrentaram. Faz com que pareça bem pequeno o enorme castelo dos Cavaleiros de são João, em Malta. Ótimo para se defender, mas eu detestaria ter de atacá-lo.

— Foi o que também pensei. Phillip! — chamou Sir William. — Pergunte a alguém onde se pode urinar por aqui.

Tyrer aproximou-se apressado de um dos oficiais samurais, fez uma reverência polida, e lhe sussurrou. O homem soltou um grunhido e acenou para um biombo.

— Há baldes ali, senhor, e creio que ele disse que há baldes também no canto da maioria dos cômodos, caso alguém sinta uma súbita necessidade.

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