O chão do túnel descia um pouco, virando para um lado e outro, as paredes escavadas na rocha em alguns trechos, revestidas com tijolos em outros, o teto escorado aqui e ali, mas tudo em boas condições de conservação. Sempre descendo, mas sem perigo. Agora, a água vazava dos lados, o ar se tornou mais fresco, e Yoshi compreendeu que passavam sob o fosso. Aconchegou-se no manto, detestando o túnel, quase tonto de claustrofobia... um legado do tempo em que ele, a esposa e os filhos ficaram confinados por quase meio ano em cômodos que pareciam masmorras, por ordem do tairo Li, não fazia tanto tempo assim. Nunca mais ficarei confinado, jurara ele, nunca mais.
Não demorou muito para que o túnel começasse a subir e logo eles saíram na outra extremidade, numa casa. Era um lugar seguro, que pertencia a um leal vassalo do clã Toranaga, que fora avisado antes e os esperava. Aliviado não ter deparado com mais problemas, Yoshi gesticulou para que a guarda avançada partisse.
A noite era agradável e atravessaram a cidade por caminhos pouco conhecidos, até chegar aos arredores e encontrar a primeira barreira na
A estrada se bifurcava pouco depois da barreira. Um dos caminhos seguia para o norte, pelo interior, na direção das montanhas; numa viagem normal, alcançariam o castelo de Yoshi, o Dente do Dragão, em três ou quatro dias. Satisfeita, a guarda avançada pegou essa estrada, voltando para sua terra... para seus lares, pois a maioria não via a família, noivas ou amigos há quase um ano. Meia légua adiante, ao se aproximarem de uma aldeia, onde havia uma boa aguada e uma fonte quente Yoshi gritou “guardas!”, fazendo sinal para que voltassem.
O novo capitão da escolta foi parar ao seu lado e quase disse “Sire?”, mas controlou-se a tempo e esperou. Yoshi apontou para uma estalagem, como se tomasse uma decisão repentina.
— Paramos ali. — O lugar era chamado de Sete Estações da Felicidade. — Não há necessidade de silêncio agora.
O pátio era limpo, calçado com pedras. No mesmo instante, o proprietário, criadas e criados saírem apressados, com lanternas, fazendo reverências, ansiosos em agradar, honrados com a importância do hóspede esperado. Criadas cercaram o palanquim, para cuidar de Koiko, enquanto o proprietário, um velho magro e calvo, asseado e bem arrumado, claudicando um pouco ao andar, conduzia Yoshi ao melhor e mais isolado bangalô. Era um samurai aposentado, chamado Inejin, que decidira raspar o penacho e se tornar um estalajadeiro. Secretamente, ainda era
O capitão se certificou de que o bangalô era seguro. Depois, Yoshi acomodou-se na varanda, sobre uma almofada, de frente para os degraus, o capitão e os outros samurai
— Por favor, traga-os para cá, Inejin.
Momentos depois, Inejin voltou, acompanhado pelos dois garimpeiros gai-jin. Um alto, o outro largo, ambos encovados, de aparência rude, barbudos, com roupas sujas, gorros ensebados. Yoshi estudou-os, curioso, com profunda aversão, considerando-os mais como criaturas do que como homens. Ambos estavam apreensivos. Pararam perto dos degraus, fitando-o, aturdidos. O capitão gritou:
— Curvem-se!
Como eles continuassem imóveis, apenas fitando-o, sem compreender, ele acrescentou para dois samurai
— Ensinem-lhes as boas maneiras.
Em segundos, eles estavam de joelhos, a cara na terra, praguejando pela estupidez em aceitar um emprego tão perigoso.
— Mas que merda, Charlie — dissera o garimpeiro da Cornualha, na cidade dos bêbados, poucos dias antes, depois da conversa com Norbert Greyforth — O que temos a perder? Nada! Estamos passando fome, sem dinheiro, sem trabalho, sem crédito... não há um único bar em Yokopoko que nos sirva uma cerveja, ninguém que nos ofereça uma cama, um pedaço de pão, muito menos uma mulher. Nenhum navio nos dá passagem. Estamos empacados aqui e não demora muito para que os
— Confia naquele miserável do Greyforth?