— Ah, Yoshi-sama. — A voz áspera de Nori Anjo veio da semi-escuridão por cima, e Yoshi teve uma dificuldade momentânea para localizá-lo. Depois o viu sem armadura, sentado no fundo da galeria, ao lado da escada. — Na reunião desta tarde, não nos disse que ia deixar o castelo com homens armados como... como o quê? Como ninja?

Um murmúrio de raiva espalhou-se pelos homens de Yoshi, mas ele riu, o que rompeu a tensão, em baixo e em cima.

— Não ninja, Anjo-sama, embora sem dúvida com o máximo de discrição possível. É uma boa idéia testar as defesas, sem avisar. Sou o guardião do castelo além de guardião do xógum. E você? A que devo este prazer?

— Está apenas testando nossas defesas?

— Matando três pombas com uma única flecha. — O humor desaparecera da voz de Yoshi, e todos sentiram um calafrio, especulando por que três, e o que isso significava. — E você? Por que tantos arqueiros? Para uma emboscada, talvez?

A risada rude ecoou pelo picadeiro, tornando-se ainda mais agressiva. Mãos apertavam armas, embora ninguém fizesse qualquer movimento ostensivo.

— Emboscada? Oh, não, não uma emboscada... uma guarda de honra. No momento em que fui informado que você planejava uma patrulha com os cascos abafados... estes homens estão aqui apenas para homenageá-lo e mostrar que nem todos nós dormimos, que o castelo se encontra em boas mãos e não há necessidade de um guardião.

Anjo gritou uma ordem. No mesmo instante, os arqueiros desceram a escada correndo e formaram duas filas, por toda a extensão do picadeiro, com Yoshi e seus homens no meio. Fizeram uma reverência formal. Yoshi e seus homens retribuíram, também formais. Mas nada mudara, a armadilha continuava pronta para ser acionada.

— Precisa de armas para testar as defesas?

— Nosso conselho aconselhou todos os daimios a se armarem com armas modernas — respondeu Yoshi, a voz calma, mas por dentro furioso por alguém ter revelado seu plano e por não ter previsto uma emboscada. — Estes são os primeiros dos meus novos fuzis. Desejo acostumar meus homens a carregá-los.

— Sensato, muito sensato. Mas vejo que carrega um. Lorde Yoshi também precisa se acostumar a andar com uma arma assim?

Fervendo de ódio pelo escárnio, Yoshi olhou para o fuzil no coldre, odiando todas as armas de fogo e abençoando a sabedoria de seu homônimo ao proibir a fabricação ou importação no dia em que se tornara xógum. E isso, mais do que qualquer outra coisa, garantiu a nossa paz por dois séculos e meio, pensou ele, sombrio. As armas de fogo são infames, covardes, dignas dos repulsivos gai-jin. Armas que podem matar a mil passos de distância, de tal forma que talvez você nunca possa ver quem mata, ou quem o matou, armas que qualquer idiota, maníaco, assaltante, homem ou mulher de baixa extração podem usar contra qualquer um, até mesmo o lorde mais elevado, com impunidade, capazes de liquidarem o mais experiente espadachim. E agora tenho de carregar um fuzil... os gai-jin nos forçaram a isso.

Com o escárnio de Anjo ressoando em seus ouvidos, ele tirou o fuzil do coldre, puxou a trava de segurança, como Misamoto mostrara, apontou, puxou o gatilho, as balas entrando na culatra automaticamente, cinco balas disparadas para as vigas do teto, com estampidos ensurdecedores, o fuzil quase escapulindo de suas mãos, com uma força inesperada. Todos se dispersaram, até mesmo seus homens, uns poucos derrubados pelos pôneis assustados que empinaram. Anjo e seus guardas se jogaram ao chão, antecipando mais disparos, letais desta vez, cada homem na sala apavorado com a rapidez dos tiros.

Em total silêncio, todos esperaram, prendendo a respiração, e depois, porque não houve seqüência, compreenderam que Yoshi apenas fizera uma demonstração do fuzil. Os arqueiros se apressaram em retornar suas posições, embora cautelosos, em torno dos homens de Yoshi, que também retomavam a ordem anterior. Anjo se levantou e gritou:

— Qual o significado disso?

Tão indiferente quanto podia aparentar, com o coração batendo forte, Yoshi continuou a acalmar seu pônei, puxou a trava de segurança e estendeu o fuzil no colo, disfarçando sua satisfação pelo sucesso da ação, tão impressionado quanto os outros pelo poder do fuzil — já disparara antes fuzil de carregar pelo cano e algumas antiquadas pistolas de duelo, contra alvos, mas nunca um fuzil de carregar pela culatra, com cartuchos.

— Eu queria lhe mostrar o valor de um desses. Em determinadas circunstâncias, são melhores do que espadas, em particular para os daimios. — Ele ficou contente ao constatar que sua voz soava calma. — Por exemplo, quando você foi emboscado, há poucas semanas, poderia ter usado um, neh?

Trêmulo, Anjo tratou de controlar sua ira, convencido agora de que corria grande perigo, sua vida sob ameaça, e também certo de que se ordenasse a prisão de Toranaga, como planejara, as balas crivariam seu corpo... em nome de todos os deuses, onde e como esse cão aprendeu a atirar, e por que não fui informado que ele se tornou um perito?

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