Muito do bom humor de Yoshi se desvanecera, ao lembrar que agora teria de suportar aquele débil mental para sempre. Mesmo assim, explicara que sem força para sustentar suas queixas, ou sem a determinação de usá-la, o inimigo era impotente.

— Força? Não compreendo, Yoshi-sama. Que força?

— O poder! — exclamara Anjo, impaciente. — O poder! Seus canhões e suas esquadras, Zukumura! Ora, não importa!

Toyama, o velho, declarara, com veemência:

— Enquanto eles estão sem sua esquadra, deveríamos destruí-los... são arrogantes demais, com uma atitude grosseira, e seu porta-voz... Estou contente por não ter participado da reunião, Yoshi-sama, pois acho que teria explodido. Vamos destruí-los agora.

— Quem? Destruir quem?

— Cale a boca, Zukumura — dissera Anjo, cansado —, e limite-se a votar quando eu mandar. Yoshi-sama, concordo com seu raciocínio. Enviaremos a carta no prazo, e a segunda parte do dinheiro da chantagem conforme o combinado. Todos a favor? Ótimo. Agora que já lidamos com os gai-jin, e o xógum e a princesa se encontram sãos e salvos viajando pela estrada do norte, não há muito o que fazer durante a próxima semana.

— Permitir a partida deles foi uma decisão equivocada que se voltará para nos atormentar — comentara Yoshi.

— Neste caso, você está errado. Por favor, prepare um plano, apresente suas idéias sobre a melhor maneira de subjugar o cão Sanjiro e Satsuma. Voto para nos reunirmos de novo daqui a duas semanas, a menos que surja uma emergência antes...

Mais tarde, retornando a seus aposentos, Yoshi não conseguira imaginar nenhuma emergência em potencial que exigisse sua presença em Iedo... nem mesmo o segundo convite, discreto e sussurrado, para visitar o navio de guerra francês, que ele não aceitara, nem recusara, mas deixara em aberto, pelas semanas subsequentes, já que não se tratava de um assunto urgente. Por isso, resolvera pôr em prática imediatamente o plano que formulara junto com a esposa, Hosaki. Agora, Anjo e seus arqueiros barravam seu caminho.

O que fazer?

— Boa noite, Anjo-sama — disse ele, tomando sua decisão. — Como sempre, eu o manterei informado.

Ocultando sua apreensão e sentindo-se exposto, Yoshi esporeou o pônei, encaminhando-se para a arcada no outro lado. Nenhum dos arqueiros se mexeu, esperando por uma ordem. Seus homens e os dois palanquins seguiram-no, todos se sentindo também indefesos.

Anjo observou-os se afastarem. Enfurecido. Se não fosse pelos fuzis, eu o prenderia, conforme o planejado. Sob que acusação? Traição, conspirar contra o xógum! Mas Yoshi nunca seria levado a julgamento, de jeito nenhum, sinto muito, meus amigos, ele foi morto quando tentava escapar à justiça.

Uma súbita pontada de dor nas entranhas fê-lo tatear à procura de um assento. Médicos baka! Deve haver uma cura, disse a si mesmo, e depois lançou mais imprecações contra Yoshi e seus homens, que haviam desaparecido sob a arcada distante.

Yoshi respirava melhor agora, não mais dominado pelo suor do medo. Continuar a avançar pelas fortificações, passando por corredores mal iluminados, por mais baias e salas de arreios, até alcançar o muro no outro lado, revestido de madeira. Alguns homens desmontaram e acenderam as tochas dos suportes na parede.

Com seu chicote, Yoshi apontou para o puxador em um lado. Seu ajudante desmontou, deu um puxão firme. Toda uma parte do muro se abriu, revelando um túnel, bastante alto e largo para que dois homens pudessem cavalgar juntos por ali, lado a lado. No mesmo instante, ele tornou a esporear o pônei. Depois que os palanquins e o último homem passaram, a porta foi fechada de novo e Yoshi deixou escapar um suspiro de alívio. Foi só então que guardou o fuzil no coldre.

Se não fosse por você, fuzil-san, pensou eie, afetuoso, eu poderia estar morto ou no mínimo seria um prisioneiro. Às vezes posso compreender que um fuzil era de fato, melhor do que uma espada. Merece ter um nome — era um antigo costume xintoísta dar nomes a espadas e outras armas especiais, até mesmo a pedras ou árvores. Vou chamá-lo de “Nori”, que também pode significar “alga marinha”, e é uma referência a Nori Anjo, para lembrar que me salvou dele, e que uma de suas balas pertence a ele, na cabeça ou no coração.

— Puxa, lorde, seus tiros foram um espetáculo maravilhoso para se contemplar — comentou seu capitão, aproximando-se.

— Obrigado, mas você e todos os homens receberam ordem de ficar em silêncio até eu permitir que falassem. Está rebaixado. Passe para a retaguarda.

Desolado, o homem se afastou, e Yoshi chamou o segundo no comando.

— Você é o capitão agora.

Ele virou-se na sela e continuou a seguir em frente, liderando a marcha. O ar no túnel era abafado. Era um dos muitos caminhos de fuga secretos do castelo. Com seus três fossos e imensa torre de menagem, o castelo levara quatro anos para ser construído — quinhentos mil homens, por sugestão do xógum Toranaga, e sem qualquer custo para ele, haviam trabalhado dia e noite, orgulhosos, até sua conclusão.

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