Não havia outros incêndios que pudesse ver dali, além do que ardia junto ao passeio, na cidade dos bêbados, e dois na Yoshiwara. O cheiro de madeira queimada, de óleo e pano em chamas e do piche que usavam nos telhados prevalecia sobre tudo, embora a brisa trouxesse a maresia. Inexoravelmente, sua atenção retornou às chamas na Brock, que tanto os ameaçava. O vento as empurrava cada vez para mais perto. Desejou que se apagassem, com medo do fogo — a chácara em que nascera pegara fogo numa horrível noite de inverno, quando era menino, o pai, embriagado como sempre, e o irmão caçula morreram; ele, a mãe e a irmã escapando por um triz, salvando suas vidas e pouco mais, indo para uma casa de indigentes, em que trabalharam demais por anos a fio, até serem salvos por Campbell Struan, parente de Dirk Struan, em cujas terras seu pai labutara.

— Vargas! Depressa, pelo amor de Deus!

— Já estamos indo, senhor!

Agora o passeio se tornara atulhado, todo mundo nas ruas, dispostos a ajudar e a dar conselhos, outros aos gritos formando uma linha de baldes com água, desde o imenso reservatório de incêndio, cheio de água do mar, de fácil alcance, unidades do exército alojadas em barracas juntaram-se à multidão. Samurais acorriam, vindos do portão norte, para ajudar, pois qualquer fogo também os ameaçava. Para o sul, no outro lado do canal, uma das casas da Yoshiwara estava em chamas, com mais gritos trazidos pelo vento, mas esse incêndio parecia contido, não constituía um perigo maior, e graças a Deus não era perto do lugar em que Nemi deveria estar.

O suor escorria por suas costas. Sentia intenso alívio por nada ter acontecido a Malcolm. Desde o almoço que ficara remoendo em seu escritório, furioso porque sua busca por garimpeiros vazara, na mais profunda ansiedade pelo duelo e seu próprio futuro. Nunca antes imaginara que poderia se envolver numa briga assim, ou que seria forçado a deixar a Casa Nobre e o Japão, exceto por doença ou acidente, antes de se aposentar, daqui a cinco anos, com a idade madura de quarenta e quatro, após vinte e cinco anos de bons serviços, subindo degrau por degrau. Agora, com Malcolm alienado, e Tess Struan furiosa com ele, sua promoção, aposentadoria... todo o seu futuro corria perigo.

O que fazer, era isso que o preocupava, até que os tremores viraram o mundo de cabeça para baixo, sua precária mortalidade outra vez se tornara manifesta; e depois, quando o terremoto cessara e pudera se levantar, cambaleando, suas glândulas e a lembrança das dívidas que ele e sua família tinham com os Struans o fizeram subir correndo, apavorado pela segurança de Malcolm... afinal, era ele quem estava no comando, e aquele rapaz era pouco mais que um inválido. Tai-panl Sinto muito, Malcolm, Norbert tem razão, sua mãe é que tem o comando. Se você não estivesse ferido, teria corrido de volta a Hong Kong quando ela ordenou, nada disso aconteceria, você assumiria as rédeas e daqui a um ano, ou por aí, estaria...

— Jamie... pode me ajudar?

Aturdido, ele virou-se. Angelique estava parada à porta, de costas, a frente do vestido suspensa, a parte de trás aberta. Por um segundo, ele sentiu-se tentado a gritar: Essa droga de vestido é uma loucura, estamos quase em chamas! Mas não o fez, apenas se apressou em abotoar o vestido, ajeitou um xale sobre seus ombros, e levou-a para o quarto ao lado, onde ela se projetou no mesmo instante para os braços abertos de Struan. Alguns homens passaram correndo pela porta aberta, carregando baldes cheios.

— É melhor saírem, senhor! — gritou alguém.

— Tempo de partir, tai-pan. Está bem?

— Estou, sim.

Malcolm encaminhou-se para a porta, tão depressa quanto podia. Com as duas bengalas ele era lento... desastrosamente lento, se houvesse uma emergência, como todos os três sabiam, Struan ainda mais. Agora havia o barulho de pés no sótão, homens tentando apagar as chamas, o cheiro de fumaça cada vez pior, aumentando a ansiedade.

— Jamie, leve Angelique para fora. Irei atrás.

— Apóie-se em mim, e...

— Pelo amor de Deus, faça o que estou mandando e depois volte, se for necessário!

Jamie corou. Pegou Angelique pelo braço, e os dois se apressaram em deixar o prédio, homens ultrapassando-os com baldes vazios, outros entrando com baldes cheios.

No momento em que ficou sozinho, Struan voltou até a arca de gavetas, vasculhou sob algumas roupas e encontrou o pequeno vidro que Ah Tok reabastecera naquela tarde. Tomou a metade do líquido marrom, tapou o vidro, guardou-o no bolso da sobrecasaca, deixando escapar um suspiro de alívio.

Angelique foi levada pela escada e saiu pela porta da frente. Respirou fundo o ar puro.

— Vargas! — gritou Jamie. — Cuide de miss Angelique por um momento.

— Pois não, senhor.

— Por favor, permita que eu ajude, monsieur — interveio pomposo Pierre Vervene, o diplomata francês. — Escoltarei mademoiselle Angelique até nossa legação... ela poderá esperar ali em segurança.

— Obrigado.

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