Ela serviu mais saquê, exultante com sua perspicácia por conta de ambos depois que um acordo de negócios era acertado, tornava-se uma questão de honra fazer com que fosse cumprido de uma forma rigorosa.

— Meu banco, o Gyokoyama, encontrou o cliente certo, um mercador chinês de seda e ópio de Xangai, em visita a Kanagawa. — Outro sorriso e ela acrescentou suavemente: — Ele avisou que teria mercado para todas as jóias que eu possa fornecer.

O sorriso de André foi igual ao dela, ele tomou o saquê, estendeu o copo para uma nova dose, e fez um brinde:

— Às futuras jóias!

— A próxima coisa...

— Antes da próxima, Raiko. Por que ele pagou tanto?

— Em tempos difíceis, um homem sábio põe parte de sua riqueza em coisas pequenas, que possa carregar na manga. Ele não é tolo... cheguei até a pensar em ficar com os brincos, pelo mesmo motivo.

O interesse de André fora aguçado.

— Os tempos são difíceis na China?

— Ele disse que toda a China se encontra em revolta, a fome prevalece, os negócios dos gai-jin em Xangai são menores do que os habituais, mas agora que a esquadra inglesa devastou a costa de Mirs, afundando muitas embarcações dos piratas do Lótus Branco, as rotas marítimas se tornarão mais seguras, pelo menos por algum tempo, e o comércio ao longo do Yang-Tsé deva aumentar na primavera. Pelo que ouvi dizer, Furansu-san, eles afundaram centenas de juncos e massacraram milhares de pessoas, muitas aldeias viraram cinzas. — O medo de Raiko era evidente. — O poder de matança dos ingleses é terrível.

Ela estremeceu, sabendo que os japoneses podiam desprezar os chineses como fracos, mas partilhavam a mesma fobia: o temor aos gai-jin e a obsessão em mantê-los longe de suas terras para sempre.

— As esquadras gai-jin vão nos atacar quando voltarem?

— Vão, sim, Raiko, se o Bakufu não pagar o dinheiro das reparações. Haverá guerra. Não aqui, em Iocoama, mas em Iedo.

Raiko estudou seu copo por um momento, especulando como poderia se proteger ainda mais, e converter aquela informação em lucro, mais do que nunca convencida de que deveria, de alguma forma, livrar-se de Hiraga e Akimoto, antes que descobrissem que estava implicada no desastre de Ori, já que o abrigara, e aos outros dois, por mais justa que fosse a causa de Sonno-joi. Uma onda de apreensão a invadiu e ela se abanou, queixando-se de que o saquê era muito forte.

— Karma — murmurou ela, trocando o “pode ser” pelo “é”. — Agora, as boas notícias. Há uma moça que eu gostaria que você conhecesse.

O coração de André deu a impressão de que parava por um instante; quando recomeçou, estava mais fraco do que antes.

— Quando?

— Deseja vê-la antes de discutirmos as questões de negócios ou depois?

— Antes, depois, não faz diferença. Pagarei o que pedir, se ela me agradar.

Outra vez um dar de ombros gaulês, e o desespero patente e ostensivo. O que não deixou Raiko nem um pouco comovida. A fome de yang por yin é a essência do nosso mundo e, sem isso, o mundo flutuante não mais flutuaria.

É estranho que a obsessão de yang em se juntar a yin — entrando e saindo, arremetendo no portão, mais dor do que prazer, desespero ao final, desespero para continuar, se terminar nunca é suficiente, se não terminar é gemer pela noite afora — seja tão transitória, yin nunca absorvendo tudo. Nesse ponto, as mulheres são abençoadas, embora os deuses, se é que existem deuses, tenham conferido aos mortais um destino cruel.

Por três vezes tentei seguir adiante, sempre porque minha yin ansiava pelo possuidor de um yang em particular — quando um yang é sempre mais ou menos a mesma coisa —, sempre escolhas inúteis, que nada proporcionaram, além de sofrimento, sem qualquer futuro, e por duas vezes minha paixão não foi correspondida. Que absurdo! Por quê? Ninguém sabe.

E não importa. Agora, o anseio da yin pode ser saciado com a maior facilidade e para uma mama-san é até uma diversão. Sempre é fácil contratar um yang, ou harigata, ou convidar uma das damas para a sua cama. Fujiko, por exemplo, que parece apreciar a diversão, e cujos beijos podem ser celestiais.

— Raiko me conhece bem, não é mesmo? — indagou André.

Ela pensou: Claro que conheço.

— E eu conheço Raiko. Na verdade, não conhece.

— Somos velhos amigos, e amigos sempre se ajudam.

É verdade, tem toda razão, só que nós dois não somos velhos amigos — não no antigo sentido asiático — e nunca seremos. Afinal, você é um gai-jin.

— Furansu-san, velho amigo. Arrumarei um encontro, você e essa dama. André sentiu-se ansioso e tentou esconder.

— Está certo. Obrigado.

— Será em breve. Por último, o medicamento.

Raiko inclinou-se para o lado da mesa. O pequeno pacote fora amarrado com perfeição, num quadrado de seda castanho-avermelhada, uma apresentação sedutora, como se fosse um presente dispendioso.

— Escute com todo cuidado.

Mais uma vez, suas instruções foram explícitas. Ela fez André repetir, até ter certeza de que ele entendera tudo.

— Raiko-san, por favor, diga a verdade: o medicamento é perigoso, sim ou não?

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