Ogama se afastou, dominado pela raiva, pensando que fora enganado, de alguma forma. Um oficial aproximou-se de Yoshi, bastante nervoso.
— Com licença, Sire — murmurou ele. — A mulher também não está aqui. Devia haver...
— Que mulher?
— Ela era jovem. Uma
— Quem?
— Um
— Mas Katsumata e esses outros dois não estavam lá dentro?
— Com toda certeza, Sire. Todos os três.
— Então há um porão ou um caminho secreto de fuga.
Descobriram ao amanhecer. Um alçapão sobre um túnel estreito, com espaço apenas suficiente para se rastejar até a outra extremidade, a uma boa distância, num jardim coberto pelo mato de uma casa vazia. Furioso, Ogama chutou a entrada camuflada.
— Baka!
— Vamos oferecer uma recompensa pela cabeça de Katsumata — propôs Yoshi. — Uma recompensa muito especial.
Ele também sentia-se furioso. Era óbvio que o fracasso afetava o relacionamento manipulado e iniciado com tanta dificuldade. Mas Yoshi era astuto demais para mencionar Takeda ou a mulher... ela não tinha a menor importância.
— Katsumata deve ter permanecido em Quioto. O
— Meus partidários farão a mesma coisa.
Ogama ficou um pouco apaziguado. Também estivera pensando em Takeda, especulara se sua fuga era um bom ou mau presságio. Ele olhou para o capitão que se aproximara.
— Oque é?
— Deseja ver as cabeças agora, Sire?
— Claro. Yoshi-dono?
— Eu também quero ver.
Os
— Já os vi — declarou ele, formalmente, no amanhecer chuvoso.
— Já os vi — acrescentou Yoshi, com a mesma solenidade.
— Ponham as cabeças em chuços, vinte diante dos meus portões, vinte diante do quartel-general de lorde Yoshi.
— E o cartaz, Sire? — indagou o capitão.
— O que sugere, Yoshi-dono?
Depois de uma pausa, sabendo que era outra vez submetido a um teste, Yoshi disse:
— Os dois cartazes podem avisar o seguinte: Estes proscritos,
— Acho. E a assinatura?
Ambos sabiam que isso era muito importante, uma questão de difícil solução. Se Ogama assinasse sozinho, seria uma indicação de que tinha a posse legal dos portões; se fosse Yoshi, indicaria que Ogama se encontrava subordinado a ele, o que era verdade, em termos legais, mas inadmissível. O sinal do
— Talvez estejamos dando importância demais a esses tolos — comentou Yoshi, simulando desprezo.
Seus olhos se contraíram quando, por cima do ombro de Ogama, avistou Basushiro e alguns guardas dobrarem a esquina da viela enlameada e se aproximarem correndo. Ele tornou a fitar Ogama.
— Por que não deixar suas cabeças em chuços aqui? Por que lhes conceder a honra de um cartaz? Aqueles que quiserem saber o que aconteceu aqui logo tomarão conhecimento de tudo... e ficarão intimidados. Neh?
Ogama sentiu-se satisfeito com a solução diplomática.
— Excelente! Concordo. Vamos nos encontrar de novo ao pôr-do-sol, e... Ele parou de falar, ao perceber a aproximação apressada de Basushiro, suado e ofegante. Foi ao seu encontro.
— Mensageiro de Shimonoseki, Sire — balbuciou Basushiro.
O rosto de Ogama tornou-se uma máscara. Ele pegou o pergaminho, foi até uma tocha. Todos o observavam enquanto abria a mensagem... e Basushiro segurava um guarda-chuva sobre sua cabeça.
A mensagem era do capitão que comandava a guarnição no estreito, datada de oito dias antes, despachada com o máximo de presteza, os homens galopando dia e noite, com a mais alta prioridade:
Sire, ontem a esquadra inimiga retornou, consistindo em nave capitânia e mais sete navios de guerra, todos a vapor, alguns rebocando barcaças com carvão, entraram no estreito. Seguindo suas instruções, de que não deveríamos atacar navios de guerra inimigos sem suas ordens por escrito, deixamos passar.
Depois da passagem da armada, uma fragata a vapor, com a bandeira francesa, voltou, numa demonstração de arrogância, e disparou sucessivas cargas de artilharia contra nossas quatro baterias na extremidade leste do estreito, destruindo-as, antes de tornar a se afastar. Mais uma vez, abstive-me de retaliar, cumprindo suas ordens. Se atacado no futuro, solicito permissão para afundar o atacante.